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30 anos de BDI

13/Setembro/2002
"O lucro que sumiu junto com a estabilização da moeda precisa ser novamente agregado ao preço"

EXPERTISE
Mozart Bezerra da Silva


30 anos de BDI
A evolução da margem bruta e do resultado econômico na construção civil brasileira


Para onde foi a lucratividade da construção? Essa pergunta é feita constantemente por meus alunos nos cursos de treinamento profissional. Eles partem do pressuposto de que a construção civil é uma atividade rentável. "Meu pai enriqueceu com isso", afirmam alguns. "Diretores de construtoras médias e grandes possuem carros de luxo", dizem outros. Mas ao constatar o baixo ganho apurado nos contratos por empreitada estudados em nossos seminários, a pergunta surge naturalmente.
Como especialista na aplicação de conceitos e métodos de economia e finanças na construção, sinto-me obrigado a explicar a evolução do lucro. Mesmo porque, como professor, ensino a calcular o preço justo, aquele que inclui um prêmio adequado aos que se dispõem a enfrentar - e efetivamente conseguem - as incertezas relacionadas à execução de obras. E ainda posso ilustrar com minha experiência pessoal, pois passei de empresário da construção civil na década de 80 para instrutor de cursos de 1990 em diante.
Para onde foi o benefício do construtor? Você sabe? Deve estar com um grupo de poucos. Quem sabe, com você leitor, se é do ramo e não tem sentido no bolso as conseqüências do problema em foco.


A evolução do BDI na construção
Expertise
O consultor Mozart Bezerra da Silva traça um histórico da evolução das taxas de BDI nos últimos 30 anos. Veja o que aconteceu com as margens de lucro ao longo do tempo.



BDI e a economia
Talvez o Brasil seja o País onde as pessoas mais sofreram com as alterações da economia e do poder de compra nos últimos 30 anos. O mesmo vale para a remuneração do capital. Para transmitir o assunto em poucas palavras, eu dividi as últimas três décadas em cinco períodos de tempo, que chamo de: Período inicial, Era da inflação, Era do overnight, Era do Real e Era da qualidade. E foram adotados parâmetros médios para representar o desempenho econômico de cada fase.

Comecei pesquisando se havia mesmo tanto lucro no passado e me reportei ao período de janeiro de 1972 a julho de 1979, época em que eu cursei o ensino colegial e a faculdade. Como estudante, tinha na época a mesma percepção sobre o resultado econômico das empresas construtoras que meus alunos têm hoje, afinal não estudava engenharia só porque gostava, mas percebia que engenheiros tinham grande prestígio e estavam muito bem financeiramente.
Analisei contratos de edificações, no regime de empreitada global, com valores em torno de 1 milhão de reais (para atualizar a cifra). Examinei preços de obras, de insumos e alguns índices relativos às obras que acompanhava na época de estagiário. Os custos diretos foram identificados, quantificados e isolados dos demais gastos. As despesas indiretas e os benefícios foram contabilizados e o resultado apurado foi que a taxa de BDI (não necessariamente a apresentada oficialmente, mas a obtida pela minha análise) girava em torno de 75%, incluindo 30% de lucro líquido sobre o custo direto.





Período inicial
A inflação alcançava cerca de 50% ao ano, entre 25% e 75% no primeiro período, chamado Período inicial. Conclui que a construção civil era esmo muito lucrativa, pelo menos para o tipo e porte de obra considerado. O bom senso de meus alunos estava certo. Aproveito, então, essa oportunidade para informar-lhes qual foi a taxa de lucratividade que ajudou a enriquecer este País: 17,1% de lucro líquido em relação ao faturamento, embutido em um preço 36,4% superior ao praticado hoje.

Diante do lucro líquido médio de 30% sobre o custo direto, consegui entender por que muitos confundem taxa de lucratividade com margem bruta: a taxa de BDI que muitos defendem hoje se parece com o lucro líquido de ontem.

Acredito até que o grande destaque atribuído à taxa de BDI veio dessa época, quando o contratante se sentia forçado a correlacionar o preço proposto com o custo direto, para não correr o risco de pagar pela execução da obra o dobro do custo direto.



Era da inflação
O aumento contínuo da inflação acabou interferindo na lucratividade.ara fins de estudo, foi definido o período de agosto de 1979 a abril de 1987 como a Era da inflação. A taxa média era de 150% ao ano, com flutuações entre 50% e 280%. Essa Era engloba meus anos de trabalho como engenheiro de obras e boa parte do tempo em que tive uma construtora própria. O principal destaque desse período é a transferência de parte da lucratividade operacional para a área financeira.

Com a perda diária do poder de compra da moeda, o empresário da construção, gerente de um grande volume de recursos financeiros, começou a obter uma crescente lucratividade com o planejamento e a gerência de seu fluxo de caixa. Negociando antecipações de receitas e postergações de despesas, boa parte do mercado conseguia aplicar diariamente um grande volume de recursos de terceiros em trânsito por seu caixa, a taxas altíssimas, o que possibilitou reduzir a argem bruta e o preço, com aumento do lucro.

A taxa de BDI média caiu de 75% para 51%. A taxa de benefícios foi reduzida de 30% para 18% sobre o custo direto. Mas a receita financeira manteve a lucratividade total no mesmo nível do período anterior. O lucro líquido total sobre o preço aumentou de 17,1% para 19,8%, pois o preço dos contratos de empreitada passou a ser menor.

É importante ressaltar que a lucratividade financeira não era obtida por todos, e sim pelos construtores que tinham capital e bom relacionamento comercial e político. Esses empresários conseguiam receber créditos com uma antecedência média de nove dias em relação aos respectivos pagamentos, cumulativamente até o final da obra, reinvestindo o lucro operacional. Ou, simplificando, recebiam suas faturas com 30 dias de antecedência em relação aos seus débitos retirando mensalmente o lucro e conquistando um ganho equivalente à taxa mensal de inflação, considerada nessa fase 7,93% ao mês.

Os pacotes econômicos criaram um cenário de alto risco. Em fevereiro de 1986, uma semana depois do então presidente José Sarney aparecer na televisão garantindo que não haveria mais inflação no Brasil, eu estava assinando um contrato de empreitada com cláusula de reajuste de preços. Ao ser questionado sobre a adoção do indexador, respondi que se não houvesse mais inflação o reajuste seria zero. Agindo assim, mesmo com a cobrança de ágio dos fornecedores e a volta da inflação, consegui permanecer no mercado, sorte que outros construtores de pequeno porte não tiveram.

A inflação continuou aumentando até atingir valores estratosféricos, interferindo na lucratividade da construção e trazendo até algumas seqüelas para a área de orçamento de obras. Era a época da hiperinflação, entre maio de 1987 e junho de 1994, época em que a moeda perdia poder de compra em taxas de até 7.000% ao ano.

Era do overnight
Nesse período, destaca-se a transferência total da lucratividade das empresas para a área financeira. Os fatores econômicos do período anterior continuaram atuando, só que em dose muito maior.

O preço foi ainda mais reduzido. A taxa de BDI média caiu de 51% para 30%. A margem de lucro operacional diminuiu de 18% sobre o custo para zero. Mas a receita obtida por meio de aplicações financeiras de curto prazo aumentou a lucratividade em relação ao custo de 30% para 37,5%. O lucro líquido total sobre o preço aumentou de 19,8% para 28,9%, pois o preço dos contratos de empreitada passou a ser ainda menor. A taxa mensal de inflação considerada nessa fase foi de 28,88% ao mês.



O preço reduzido dessa época colocou em dificuldade as empresas menores e as de menor influência política, que dependiam apenas do lucro operacional.

Essas companhias submetiam-se a todos os riscos e incertezas do mercado para tentar sobreviver. Popularizou-se a frase "trocar seis por meia dúzia", referindo-se ao lucro do pequeno construtor.

Em um certo momento, gerenciando minha empresa em 1990, percebi que não tinha cacife para disputar o mercado lucrativo. Foi aí que resolvi mudar minha carreira: "Se é para trabalhar por amor, vou fazer uma outra coisa que gosto, bem menos arriscada: ser professor". Nesse meio tempo, trabalhei em uma empresa incorporadora bastante lucrativa. Não esqueço de como o diretor fazia para levar toda a equipe técnica para almoçar em uma churrascaria de luxo sem pagar a conta: ligava um pouco antes prorrogando por um dia o pagamento de algum fornecedor. Foi a Era do overnight, quando se podia ganhar muito dinheiro de um dia para o outro.

A preparação do orçamento e o cálculo da taxa de BDI tinham pouco valor. O que interessava era o percentual negociado de adiantamento e o prazo médio de pagamento aos fornecedores. Orçamentistas eram estagiários e recém-formados. Tal era o desinteresse que, como professor de orçamento da Editora Pini, tinha que enfatizar a importância do orçamento, citando palavras de Jesus Cristo, em um questionamento que encontrei na Bíblia: "Quem que pretendendo construir não faz as contas primeiro para ver se tem como executar?" (Lucas; 14: 28).

A Editora Pini e o Instituto de Engenharia de São Paulo faziam contas. No livro Critérios para Fixação dos Preços de Serviços de Engenharia, publicado em 1993, encontra-se o cálculo de uma taxa de BDI para contratação de obras por empreitada: 70,41%, com 17,05% de lucro líquido em relação ao custo direto. Esses valores estavam bem próximos dos obtidos em nosso estudo para as construtoras lucrativas, uma margem bruta efetiva de 67,54%, com 37,50% de benefício.



Era do Real
Finalmente o poder de compra da moeda se estabiliza e modifica drasticamente o benefício da construção civil por empreitada. O período entre julho de 1994 e dezembro de 1996 será considerado a Era do Real.

A principal característica dessa época foi o fim da obtenção da lucratividade financeira, em um momento em que não havia lucro operacional na taxa de BDI e de 30% tradicionalmente em vigor.


Algumas construtoras conseguiram praticar de imediato uma margem bruta mais elevada em novos contratos, pois sabiam que não há como se manter no mercado sem incluir no preço um prêmio que recompense a empresa pelo seu trabalho e pela superação de incertezas e riscos. Mas a maior parte do mercado, incluindo contratantes e construtores, achou interessante manter a margem bruta tradicional. E essa taxa não incorporava margem de segurança para o contratante, nem benefício para o construtor de pequeno e médio porte. Esta foi a seqüela decorrente da Era do overnight.

A solução encontrada para manter a margem bruta consistiu em aumentar o preço via aumento artificial do custo direto. Um artifício contábil: seja por meio da elaboração de levantamentos de custos superestimados, seja pela classificação como custo da maior quantidade de itens possível, discriminando-os na planilha orçamentária, e excluindo-os da taxa de BDI. Em termos populares isso equivale a "chamar urubu de meu louro".

Esse artifício permitiu a manutenção da margem bruta, mas gera algumas dificuldades técnicas. Para ilustrar: imagine que aumentaram as despesas indiretas de um restaurante e o mercado local não permitia na época um aumento da margem bruta e do preço das massas e do vinho. O proprietário mantém o preço dos alimentos mas começa a cobrar na nota fiscal, com o lançamento de verbas e percentuais, alguns itens de despesas indiretas, digamos, dedetização, energia e salário do caixa. Mesmo supondo que o cliente aceite pagar a conta com as despesas indiretas discriminadas (o que se observa em muitas planilhas orçamentárias de obras por empreitada), ainda permanecem questões importantes. Um cliente que paga explicitamente por massa, vinho e dedetização em um restaurante poderia ouvir do garçom a seguinte argumentação: "Gostaram da refeição? Não? Pois é, o ponto forte do restaurante é a nossa dedetização".


Era da qualidade
O período entre janeiro de 1997 e julho de 2002 foi batizado de Era da qualidade.

Chamado assim pelo fato de, a partir de janeiro de 1997, começarem a ser praticadas com mais intensidade as atividades direcionadas à obtenção da qualidade na indústria da construção civil e ao atendimento às normas internacionais (ISO) e às nacionais (NR-18).

A qualidade vem sendo mesmo obtida nos últimos 30 anos, conforme demonstram os indicadores de desempenho calculados nesse estudo e apresentados na tabela 5, válidos para obras de porte médio do setor de edificações.

Analisando a faceta econômica, porém, a implementação da qualidade gera um preço menor, por conta da redução do custo direto em uma proporção superior ao aumento das despesas indiretas. A redução de custo direto por si só já aumenta a taxa de BDI. As despesas indiretas maiores na estrutura da administração local e central, tais como melhores instalações, equipamentos, funcionários e sistema gerencial, aumentam ainda mais a margem bruta.

Resumindo: a taxa de BDI da Era da qualidade é maior que a da Era do Real, ainda que o preço seja menor. Em um cálculo atual, para o porte das obras citadas, as empresas precisam trabalhar com uma taxa de BDI em torno de 45%, com um benefício de 10% já considerado.

O preço da Era da qualidade volta assim aos níveis do preço reduzido apresentado na época do overnight, que financia, porém, a obtenção de serviços de qualidade, reduz significativamente o nível de incertezas e riscos e oferece ao construtor um lucro líquido de cerca de 1/3 do que foi obtido no Período inicial e na Era da inflação.

Para os adeptos da taxa de BDI da época da hiperinflação o conselho é o mesmo de Jesus: Faça as contas. O lucro que sumiu junto com a estabilização da moeda precisa ser novamente agregado ao preço. É bem provável que fazendo assim você não enriquecerá tanto como seria possível no passado, mas conseguirá concluir suas obras, ser respeitado como empresário e trabalhar com qualidade, que também inclui a satisfação pessoal do construtor.





Evolução do lucro na construção por empreitada
  • Havia uma atraente vantagem de caráter econômico para o construtor embutida nos preços praticados no Período inicial.
  • Essa qualidade foi mantida na Era da inflação, apesar da prática de um preço menor, fruto da obtenção de parte da lucratividade por meio de aplicações no mercado financeiro.
  • Na Era do overnight, a lucratividade era obtida integralmente nas aplicações financeiras de curto prazo, razão pela qual os preços praticados se reduziram e o benefício obtido era o mais alto de todo o período em estudo. O preço e a margem dessa fase eram reduzidos, funcionando como um sistema de captação de recursos para investimentos.
  • Na Era do Real, acabou o lucro financeiro e a taxa de BDI precisava ser superior a 30% para a obtenção de algum benefício para o construtor, lucro de ordem operacional e econômica.
  • Na Era da qualidade, custos e preços se reduzem, mas a margem bruta aumenta. Faça as contas e trabalhe com segurança.

    Mozart Bezerra da Silva
    Engenheiro civil formado pela PUC-Campinas,
    e-mail:m1@mozart.com.br


    CURSOS
    Orçamento de obras, com Mozart Bezerra da Silva, dias 19 e 20 de setembro de 2002, no Rio de Janeiro-RJ e dias 26 e 27 de setembro de 2002, em São Paulo-SP. Informações: (11) 3224-8811 r. 396, e-mail: cursos@pini.com.br

    Como calcular o BDI, com Mozart Bezerra da Silva, dias 28 e 29 de setembro de 2002, em São Luís-MA. Informações: (11) 3224-8811 r. 396, e-mail: cursos@pini.com.br
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