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1/Dezembro/1997
ARMANDO DE HOLANDA
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Menos de duas décadas de atividade intensa e diversificada foram suficientes para Armando nos brindar, principalmente em Pernambuco, com uma consistente contribuição para a arquitetura nordestina e brasileira. Sem subestimar ou privilegiar qualquer das tarefas que realizou, Armando sempre combinou, com maestria, a sensibilidade do artista com a racionalidade do entusiasta da industrialização. O universo de suas preocupações foi sempre o Nordeste brasileiro, cuja realidade climática e cultural era algo com que se podia conviver com inteligência e sem preconceitos autodepreciativos. Com essa visão, contemplava tanto o espaço construído como o natural, usando a tecnologia para converter a natureza em sua aliada.
"ARQUITETO
DOS ALEGRES TRÓPICOS"

Um dos momentos inesquecíveis da minha vida foi compartilhado com Armando de Holanda. Éramos estudantes de arquitetura em 1962 e, em Belo Horizonte, ao participar de um encontro nacional sobre ensino de arquitetura, fomos convidados por um colega mineiro, Frank Svensson, a conhecer Ouro Preto. Era junho e em uma noite clara, fria e estrelada assistimos a um concerto da orquestra de câmara da Universidade da Bahia, na nave da Igreja de São Francisco de Assis. Ouvir a música barroca de Bach, na magia do espaço interno da igreja, obra-prima do barroco brasileiro, foi uma feliz combinação e uma experiência singular e inolvidável.
Nascido na cidade de Canhotinho, interior de Pernambuco, em 15 de dezembro de 1940, Armando integrou a primeira turma a estudar arquitetura no edifício do antigo Seminário de Olinda que se instalara no ex-colégio jesuíta seiscentista e para onde se transferiu a recém-criada Faculdade de Arquitetura, depois de se tornar autônoma em relação à Escola de Belas Artes, onde nascera. Foi, portanto, no alto de uma das colinas olindenses, de onde Joaquim Cardozo contemplara o que chamava de "atlântico mar", e na eloqüência do silêncio do pátio e dos corredores do antigo colégio jesuíta que Armando se iniciou nos prazeres da arquitetura.
Ainda estudante, colaborou com Aluízio Magalhães na montagem da exposição permanente "O açúcar e o homem" e ainda ganhou o primeiro prêmio para estudantes de arquitetura no Salão do Museu do Estado de Pernambuco.
Recém-formado, foi logo atraído pela Universidade de Brasília (1964/65), onde iniciou um curso de pós-graduação que não chegou a concluir devido aos desdobramentos truculentos do golpe militar. Outra experiência de pós-graduação, no "International Course on Buildings" (1967), no Bowcentrum de Rotterdã, Holanda, o permitiu diplomar-se com distinção no "Curso de Especialização em Protótipos".
De volta ao Brasil, Armando desenvolveu intensa atividade ligada a empresas públicas, como a Sudene, cuja sede ajudara a projetar, na qualidade de membro da primeira equipe formada com esse objetivo e coordenada pelo arquiteto Glauco Campelo. Foi ainda arquiteto da Companhia Hidrelétrica da Boa Esperança, chefe da Divisão de Planejamento da Companhia de Habitação de Pernambuco, coordenador do Curso de Especialização em Restauro de Monumentos mediante convênio UFPE/Iphan, autor e coordenador da equipe técnica que elaborou o plano físico do Parque Histórico Nacional dos Guararapes e coordenador geral do Programa Ecológico e Cultural do Complexo Industrial-Portuário de Suape.
De 1974 a 1979, foi professor do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco e, ministrando disciplinas de projeto arquitetônico como poucos, transmitiu a consciência de se pensar uma arquitetura para o Nordeste.
A década de 70 no Recife foi um período notável pela grande quantidade de projetos industriais aprovados para implantação com incentivos e financiamento da Sudene, como parte de esforço do poder público federal para desenvolver o Nordeste, até então famoso somente pelas suas freqüentes secas. Alguns escritórios especializados em projetos econômicos estavam sediados no Recife e Armando, já bem conceituado profissionalmente, foi con
tratado para elaborar os projetos físicos. Os vários projetos de instalações industriais passaram a ser o objeto da aplicação dos princípios de racionalização de construção, tão caros a Armando de Holanda. Esses projetos engendravam relações profissionais e sociais que induziam a projetos de outra natureza, como habitações uni e plurifamiliares, realizados na Região Metropolitana do Recife.
Como arquiteto do seu tempo, Armando usou com freqüência os materiais com sua textura natural como o tijolo e concreto armado aparentes. Nos projetos de residências urbanas e no campo percebe-se claramente a herança das antigas casas grandes de engenho oitocentistas com alpendres generosos e até mesmo reinterpretações de detalhes construtivos tradicionais, principalmente nos beirais dos telhados. Os conjuntos de casas conjugadas eram mais despojados, predominando cobertas em lajes planas horizontais protegidas por telhados de alumínio ou cimento-amianto.
Mas a racionalidade não era a única característica da arquitetura de Armando. Embora julgada essencial, essa mesma racionalidade por vezes era suavizada pela indisfarçável sensibilidade que o arquiteto liberava naturalmente em projetos de habitação unifamiliar. A liberdade formal total se manifestaria nos monumentos rodoviários que ele concebeu para Petrolina e Garanhuns, onde combinou, com maestria, a força da textura do concreto com a poé-tica dos símbolos sugeridos.

SOMBRAS E COMBOGÓS
A sensibilidade de Armando se manifestava não somente nos seus projetos de construção como nos de preservação dos ambientes construídos e naturais, caso dos parques Histórico Nacional dos Guararapes e Cabo Santo Agostinho. Nas palavras do arquiteto Glauco Campelo, "Armando Holanda foi o arquiteto pernambucano de sua geração que melhor compreendeu os problemas do meio ambiente e da arquitetura do Nordeste. Na defesa dos bens culturais e naturais da região, ele esteve sempre voltado para a sua terra e a sua gente... Ele aplicou sua inteligência e sensibilidade na busca de novos caminhos para a harmoniosa integração dos valores de nossa história, de nossa raça e de nosso meio".
Armando foi o primeiro arquiteto brasileiro a formular uma teoria de convivência da arquitetura com os trópicos e o fez pelo precioso e objetivo livro "Roteiro para construir no Nordeste - Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados", publicado pela Universidade Federal de Pernambuco em 1976. Esse pequeno manual é constituído pelas notas de aula de Armando no curso de arquitetura, desenvolvidas e publicadas por insistência dos colegas diante da evidente qualidade do seu conteúdo.
Na realidade, Armando já havia sido precedido nessa preocupação por três outros pernambucanos e um mineiro igualmente ilustre. Em 1929, o pernambucano Aluizio Bezerra Coutinho, doutorando-se em Medicina no Rio de Janeiro, defendeu tese sobre a "Arquitetura nos países quentes", na qual, ao mesmo tempo que divulgava e aprovava os princípios racionalistas enunciados por Le Corbusier, descobria os valores ecológicos dos mucambos de palha do Nordeste brasileiro.
Em 1931, outro médico pernambucano, José Mariano Carneiro da Cunha Filho, que viria a ser conhecido como o maior propagandista e teórico do movimento da arquitetura neocolonial no Brasil, publicava um artigo sob o título de "Arquitetura mesológica", em que pregava a reutilização dos artifícios de adequação da arquitetura ao meio, freqüentes no período da colônia brasileira.
Em 1933, o pernambucano Gilberto Freyre lançava o seu livro "Sobrados e mucambos", retomando e desenvolvendo a tese de Aluízio Bezerra Coutinho sobre a ecologia dos mucambos. No ano seguinte, chegava ao Recife o arquiteto mineiro Luiz Nunes e ali, liderando uma equipe de arquitetos e engenheiros, projetava e executava uma série de edifícios com paredes inteiras semitransparentes, construídas com elementos vazados de cimento e areia conhecidos na região como "combogós".

"CONSTRUIR FRONDOSO"
Nenhum dos
predecessores de Armando, no entanto, escreveu um manual tão claro, simples e objetivo como o "Roteiro para construir no Nordeste". Ao fazê-lo, no entanto, como a grande maioria dos intelectuais modernistas brasileiros da década de 30, ele crucifica o século XIX, como se pode concluir na introdução do seu trabalho: "Após a ruptura da tradição luso-brasileira de construir, ocorrida no século passado e que trouxe prejuízos ao edifício, enquanto instrumento de amenização dos trópicos, de correção dos seus excessos climáticos, não foi desenvolvido, até hoje, um conjunto de técnicas que permitam projetar e construir tendo em vista tal desempenho da edificação". Na realidade, algumas das conquistas da higiene da habitação e conforto ambiental, como a abertura de janelas externas em todos os cômodos e as varandas periféricas das casas rurais, datam do século passado, o que não tira o mérito das recomendações do "Roteiro", onde Armando exerce, com genialidade, sua capacidade de síntese.
Todas as técnicas sugeridas por Armando se realizam mediante o arranjo de elementos da arquitetura, recorrendo somente em casos especiais aos sistemas de condicionamento de ar que dependam de energia elétrica. Até mesmo no caso de desenvolvimento de novos sistemas de condicionamento Armando considera que seus estudos não perdem a validade "uma vez que o dimensionamento dos equipamentos estará sempre dependente da maior ou menor adequação dos ambientes à radiação solar".
De todas as recomendações em seu "Roteiro", a primeira é também a mais importante: Criar uma sombra, que se explicitava quando dizia: "Comecemos por uma ampla sombra, por um abrigo protetor do sol e das chuvas tropicais; por uma sombra aberta, onde a brisa penetre e circule livremente retirando o calor e a umidade; por uma sombra amena, lançando mão de uma cobertura ventilada, que reflita e isole a radiação do sol; por uma sombra alta, com desafogo do espaço e muito ar para se respirar". Armando recomendava ainda: recuar as paredes, vazar os muros, proteger as janelas, abrir as portas, continuar os espaços, construir com pouco, conviver com a natureza e, para concluir, construir frondoso que justifica quando afirma: "Livremo-nos dessa dependência cultural em relação aos países mais desenvolvidos, que já retardou em demasia a afirmação de uma arquitetura decididamente à vontade nos trópicos brasileiros... Trabalhemos no sentido de uma arquitetura livre e espontânea, que seja uma clara expressão de nossa cultura e revele uma sensível apropriação de nosso espaço; trabalhemos no sentido de uma arquitetura sombreada, aberta, contínua, vigorosa, acolhedora e envolvente, que, ao nos colocar em harmonia com o ambiente tropical, nos incite a nele viver integralmente".
As lições de Armando de Holanda fazem dele um autêntico mestre em arquitetura e a forma como as transmite é também tão bela na sua simplicidade que dispensa interpretações.
Todo arquiteto enfrenta resistências de toda ordem quando pretende concretizar em seus projetos as idéias que cria, adota ou desenvolve e, com Armando, não poderia ocorrer de outra forma. Mas dentre os seus vários projetos, um se destaca pela integral incorporação das lições do "Roteiro": o Parque Histórico Nacional dos Guararapes, cujas obras de construção não foram ainda concluídas. Armando definiu o plano físico do Parque e projetou os edifícios que seriam construídos em diferentes sítios dos seus 224 ha. Segundo ele, "as diversas edificações deveriam possuir uma arquitetura livre e informal que contribuísse para a amenização e o interesse do Parque". Não obstante as diferentes construções terem sido projetadas distantes uma das outras e nunca vistas em conjunto, Armando, preocupando-se com a unidade plástica do ambiente formado pelas novas obras e pela paisagem natural a ter sua flora restaurada, afirmava no memorial justificativo dos partidos arquitetônicos adotados no Parque: "Como desejássemos evitar um tratamento distinto para cada constru
ção, o que poderia resultar num conjunto sem unidade, bem como forçar a repetição de uma mesma solução para todas as edificações, o que levaria a uma certa monotonia, adotamos o partido de lançar sombras criadas por uma unidade de coberta padronizada - triângulo de dupla curvatura -, com a qual obtivemos, mediante um jogo com-binatório, uma família de cascas de formas distintas, mas claramente aparentadas. Esses triângulos, obtidos pelo corte de um parabolóide hiperbólico matriz ao longo de suas diagonais, geram famílias de cascas de um, dois e quatro apoios, por suas posições relativas aos pilares".
Estão ali presentes, por um lado, a racionalização pelo uso de cascas que se originam de uma mesma matriz, podendo assim ser executadas com fôrmas padronizadas, de fibra de vidro; por outro, a sensibilidade pelo emprego de formas elegantes que, pela sua utilização combinada e variada nega a monotonia da industrialização.
Eram assim as lições que Armando de Holanda nos legou ao nos deixar, em 1979.

* Geraldo Gomes da Silva é arquiteto, professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco. Colaboração: Danielle de Abreu e Lima, estudante de arquitetura do mesmo departamento. Desenhos e di-gitalização: Luiz Ricardo Fonseca Marcondes, Nohab Santos Carvalho Rocha e José Cláudio Cruz e Silva

Icanor-Indústria de Cabos
de Aço do Nordeste - Igarassu, PE

1968

No galpão, as coberturas em estrutura metálica conformam sheds incomuns. As fachadas resultam da composição de elementos estruturais em concreto armado com tijolos à vista e combogós.


Fazenda Chaves -
Gurinhém, PB

1968

Residência do fazendeiro, num projeto pecuário financiado pela Sudene. No tradicional alpendre, pilares de secção retangular em tijolos aparentes e vigas de concreto armado com seções semelhantes às usuais em madeira coexistem com os antigos beirais de caibros horizontais.

Nordeste Gráfica Editora - Jaboatão dos Guararapes, PE
1969

Tanto o pavilhão industrial como os blocos de administração e serviços têm seus cantos arredondados, quebrando a rigidez comum em instalações dessa natureza. Fachadas em combogós e tijolos aparentes.

Monumento Rodoviário - Petrolina, PE

1969

Prêmio do IAB-PE, em 1969. Segundo Armando: "Ao desenhar este Monumento Rodoviário procurou-se criar uma forma dinâmica e de ricas relações espaciais a partir de uma grande economia de meios: cinco vigas iguais de concreto, apoiadas isoladamente em seus centros de gravidade, organizam um conjunto que expressa a multiplicidade de direções que se cruzam sobre Petrolina; um conjunto, um sistema, uma escultura em que o todo é mais que a soma de suas partes".

Conjunto residencial em Boa Viagem (Em co-autoria com Glauco Campelo) - Recife, PE

1969

Seis casas conjugadas três a três ocupam uma quadra inteira. Metade delas tem sua zona de estar voltada para o interior da quadra, para a melhor ventilação e insolação. Cobertas em lajes planas horizontais de concreto armado..

Fórum e Câmara Municipal - Petrolina, PE

1972

Amplos espaços de circulação, alpendres e brise-soleil contribuem para atenuar os rigores do clima do sertão. A modulação e a racionalidade dos espaços dos blocos menores são também características marcantes.

Edifício Bela Esperança -
Paulista, PE

1973

Plantas simétricas; a reentrância que sugere dois blocos, na realidade é um artifício para ventilar quartos interiores. A fachada voltada para a avenida e para o poente apresenta-se com rigor de composição e despojamento singulares.

Conjunto residencial
Belo Horizonte - Paulista, PE

1972

Construído na praia de Pau Amarelo, com unidades conjugadas de dois pavimentos e um edifício de apartamentos. O rigor do racionalismo é suavizado pelas superfícies vazadas em combogós e pela vegetação tropical.


Edifício Gerânio - Recife, PE

1974

Edifício de apartamentos residenciais com
plantas rigorosamente simétricas. Todos os vãos são protegidos por abas de concreto armado que se compõem com as superfícies de combogós, que deveriam encobrir os aparelhos de
ar-condicionado.

Edifício Bougainville - Recife, PE

1973

Com todas as janelas recuadas que não alcançam o teto e permitem, graças a detalhes construtivos, a ventilação constante impedindo a infiltração de águas pluviais. Tijolos aparentes e combogós marcam a composição das fachadas.


Quartel da Polícia Militar - Jaboatão dos Guararapes, PE
1973

Construído no limite do Parque Histórico Nacional dos Guararapes, o amplo edifício tem duas alas, um pátio interno e se caracteriza pelos artifícios usados para diminuir efeitos da insolação. A estrutura independente lançada além dos corredores externos resulta em beirais de 3 m. Nas fachadas, combogós e duas esbeltas vigas de concreto armado dispostas longitudinalmente
sombreiam as janelas.


1975

Situado no mesmo sítio onde se deu a batalha que determinou a derrota e conseqüente expulsão dos holandeses. Todos os edifícios novos serão construídos usando uma mesma família de cascas de concreto armado que são partes de parabolóides hiperbólicos. Os edifícios já concluídos, com paredes revestidas com azulejos de Athos Bulcão, são magníficos exemplares de "sombras amenas".
GERALDO GOMES DA SILVA

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