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Molde exato

9/Setembro/2004
Características estruturais do empreendimento definem melhor sistema a ser utilizado. Produtividade
deve ser analisada em função da experiência das equipes de trabalho


As fôrmas podem ser um produto temporário na obra, mas a marca que deixam no empreendimento é sentida para sempre. Afinal, são responsáveis por uma estrutura com medidas geométricas exatas e com características perfeitas de prumo, alinhamento, esquadro e nível.

A conta é simples: uma fôrma mal executada pode implicar desperdício de mão-de-obra, de materiais e, ao longo do tempo, o empreendimento fica mais sujeito a patologias nas paredes de vedação, revestimentos externo, interno e instalações. E, se já houve uma época em que se corrigia o prumo com o revestimento (com aumento significativo da espessura), atualmente não existem mais folgas para isso, nem é uma solução economicamente viável. "Correção é desperdício e todos querem trabalhar com perda zero", diz Paulo Assahi, projetista de fôrmas. Para evitar isso, há apenas uma condição: estrutura perfeita e bom uso das fôrmas, garante Assahi.

A preocupação com o sistema aumenta quando se presta atenção nos números. A participação das fôrmas no custo de estruturas de concreto armado é de 40%, segundo os índices do TCPO (Tabelas de Composições de Preços para Orçamentos), da PINI. Segundo estimativa feita por Assahi, com base em obras de edifícios na cidade de São Paulo, o sistema de fôrmas consome em torno de 30% do prazo total do empreendimento, mas, se adotadas medidas de racionalização, esse número diminui. A Construtora Cyrela, por exemplo, tem um sistema de gestão centrado nas fôrmas, com treinamento de mão-de-obra, projeto de fôrma de madeira feito por especialistas e procedimentos especialmente desenvolvidos para essa finalidade.

Em levantamento realizado pelo engenheiro Antonio Carlos Zorzi, da Cyrela, constatou-se que a empresa tem consumido, em média, 26% do prazo total da obra na execução das fôrmas, com uma produtividade de 0,45 a 0,47 Hh/m2 - número invejável até mesmo para os sistemas mais avançados do mercado, principalmente se levarmos em conta que a construtora adota moldes de madeira, fabricados, na maioria das vezes, no canteiro de obras.

A opção pelo tipo de sistema a ser utilizado tem relação direta com as características do empreendimento, com destaque para o lançamento estrutural, e com a rapidez que se espera. No caso da Cyrela, apesar de optar por fabricar os moldes em obra, há um grande investimento no treinamento da equipe, planejamento do fluxo de produção, além de um acompanhamento desde a fase de projeto das fôrmas, realizado por um especialista. É a racionalização total de um sistema que se encaixa à maioria das obras da empresa. Mas isso não significa falta de investimento em novas tecnologias. "Usamos painéis industrializados em empreendimentos em que encontramos viabilidade e quando o lançamento estrutural permite tecnicamente utilizar a tecnologia", explica Zorzi.

Os sistemas metálicos garantem uma produtividade potencial alta - mas em condições ideais. Ou seja: são soluções perfeitas quando se têm grandes panos de lajes sem vigas ou quando o número de repetições é muito alto, já que o material permite grande reutilização. Enquanto o molde de madeira suporta cerca de 20 utilizações, um metálico pode ser utilizado mais de 100 vezes.

O prazo da obra também deve ser levado em conta, pois esses sistemas trabalham com locação do equipamento.

A maioria das obras da cidade de São Paulo utiliza fôrma de madeira (fabricada fora do canteiro), mas com escoramento metálico. As fôrmas industrializadas ainda não se viabilizaram totalmente no Brasil porque a maior vantagem está na diminuição da mão-de-obra do canteiro. E nosso problema, até a alguns anos, não era esse custo, por termos uma mão-de-obra mal remunerada. "Ou seja, não havia uma grande compensação", explica Jorgle Batlouni Neto, diretor da Tecnum Construtora e coordenador do grupo de trabalho de estruturas e tecnologia e qualidade do SindusCon-SP. "Mas, sem dúvida, é uma tendência e o próximo passo na evolução das fôrmas", avalia. "Talvez em 2010 essa seja a solução bem adotada."

Em qualquer um dos casos, há algumas diretrizes para ter ganhos de produtividade - e, mais do que isso, uma estrutura perfeita. Zorzi recomenda, em primeiro lugar, que o projeto arquitetônico e o lançamento estrutural sejam pensados também a partir do reaproveitamento das fôrmas. A especificação dos materiais utilizados na fabricação do molde (durabilidade e resistência) tem de levar em conta o número de utilizações previstas. Além disso, fazer um projeto de fôrmas é imprescindível para se ter boa racionalização, com apresentações de cuidados na fabricação e seqüência de montagem. Por último, a mão-de-obra tem de saber usar a ferramenta eficientemente. "Posso ter um sistema industrializado e as condições ideais
para utilizá-lo, mas se a mão-de-obra não sabe utilizá-lo, a produtividade esperada não será alcançada", diz Luis Otávio Cocito de Araújo, pesquisador da Poli-USP.

O treinamento tem de ter como principal objetivo aumentar o desempenho do grupo - uma das alternativas é dividir tarefas. É preciso mostrar como o sistema funciona e dar a responsabilidade ao operário. "É fazer uma única operação em que o único responsável seja quem fez. Não é o mestre-de-obras quem vai revisar", conta Paulo Assahi. Segundo o projetista, é comum encontrar uma viga mal alinhada ou um pilar fora de prumo, e a desculpa do mestre-de-obras é que ainda não houve uma revisão. No treinamento também devem ser dadas algumas dicas. Terminada a montagem, deve-se tentar colocar um prego nas frestas e, se ele passar, é porque está errado, recomenda Assahi.

Desenforma
Se os sistemas estão cada vez mais racionalizados, os escoramentos metálicos facilitam e agilizam a montagem e as fôrmas chegam prontas e com qualidade à obra, há ainda um aspecto que deve evoluir: a desenforma. Sem os cuidados básicos, as peças e componentes do sistema de fôrmas podem estragar, além de ocorrer possíveis danos na estrutura de concreto.

O primeiro passo é a remoção dos escoramentos. "No intuito de reaproveitar ao máximo, há muito tempo se faz quase um único jogo de fôrmas para um ciclo de concretagem de uma laje por semana. É uma grande ousadia estrutural", relata Assahi. Para evitar problemas, é preciso saber o que acontece na estrutura e ter controle das partes da fôrma que se vai retirar.

Ao desenformar, exercem-se esforços na estrutura prematuramente, provenientes do próprio peso do concreto e das atividades em execução da próxima laje. Isso, em um concreto com poucos dias, pode significar uma deformação além da prevista pelo projetista. A solução é ter cuidado redobrado no cálculo estrutural do escoramento. "Pontua-se uma laje para poder tirar de 80 a 90% das fôrmas, que serão utilizadas no pavimento acima.

Deve ter escoramentos estrategicamente distribuídos para evitar problemas", conta Assahi. A desenforma das vigas e lajes pode ser iniciada apenas depois de estarem posicionadas as escoras permanentes, com a função de distribuir os esforços atuantes na laje recém-concretada. Além disso, fôrma também é um elemento de cura e, ao retirá-la, é preciso providenciar um outro processo de cura, pelo menos por uma semana.

A falta de critérios e cuidados ao desenformar pode causar danos no molde - o que prejudica significativamente o reaproveitamento. O uso de pé-de-cabra, por exemplo, é desaconselhável. Uma alternativa é colocar cunhas de madeira que, cravadas com cuidado entre a fôrma e o concreto, fazem a mesma função de destacar um do outro, mas sem danificar o material. Para isso, é preciso prever pontos de início da desenforma já no projeto de produção de fôrma e treinar a equipe.

Na hora da retirada, é importante não deixar que as fôrmas caiam em queda livre, para evitar que se quebrem e, ainda, que provoquem acidentes - o uso de cordas ou telas previamente posicionadas facilita a operação. Para que os operários encarem o produto como um equipamento que deve ser "respeitado" - principalmente quando se trabalha com moldes de madeira - uma sugestão é pintá-los.


Check-list

  • Para a comparação dos sistemas de fôrma, devem ser considerados os custos totais (estrutura, prazo, materiais, equipamentos), e não apenas o custo inicial
  • Na fabricação dos painéis, identificá-los com a numeração indicada no projeto
  • Estocar as peças prontas fora da área de montagem, protegendo-as do contato com o solo e minimizando a ação do sol e da chuva
  • Fazer a limpeza dos painéis no andar da desenforma, antes de transportá-los para o andar superior (em montagem)
  • O projeto de produção da fôrma deve ter, no mínimo, plantas de montagem, de confecção, especificação técnica dos materiais e normas básicas operacionais


    Recomendações técnicas e de desempenho

  • Arquiteto e projetista de estrutura devem trabalhar em sintonia para a obtenção de melhores resultados, por causa da forte dependência da estrutura em relação à arquitetura do edifício

  • Coordenação das dimensões dos elementos estruturais, padronizando-os em geometrias simples e repetitivas, adequadas aos equipamentos disponíveis, sempre buscando facilidade e simplicidade

  • Caso esteja definida a utilização de sistema de fôrma padronizado de empresa do mercado, dimensionar os elementos estruturais de modo a viabilizar o melhor emprego das dimensões padronizadas desse sistema. Por exemplo: deve-se dimensionar a seção transversal de pilares para medidas em valores múltiplos dos existentes para os painéis (como de 5 em 5 cm). Evita-se, assim, a necessidade de se adaptar segmentos de madeira para atender a uma medida não padronizada, com desperdício de mão-de-obra e material, além de comprometer a qualidade final da peça executada. O mesmo critério deve ser empregado quando definido o uso de sistema de fôrma modular para as lajes

  • Manter fixas as dimensões da seção transversal de pilares, da fundação até a cobertura ou, se for impraticável, pelo maior número de pavimentos possíveis

  • Procurar manter constante a largura de vigas entre pavimentos consecutivos. Essa providência gera uma série de benefícios, pois permite que o painel de fundo das vigas seja reaproveitado nos pavimentos superiores - evitando-se desperdícios de material e tempo de serviço; conserva constantes as dimensões da laje, não gerando necessidade de reforma de seus painéis da fôrma; mantém constante o painel do pilar que recebe a viga; conserva inalterados o sistema de travamento do painel de fundo da viga e o sistema de cimbramento da viga, desde que a altura entre pavimentos (piso a piso) e a altura entre o fundo da viga e o fundo da laje não sejam diferentes

  • Priorizar geometria das lajes com ângulo reto (90o) entre lados adjacentes. Esse detalhe otimiza a modulação, montagem e reaproveitamento dos painéis de laje, além de proporcionar soluções racionalizadas para o cimbramento, escoramento permanente e, também, para a armação da laje

  • Priorizar o formato retangular para os pilares e evitar seções cilíndricas, pelo elevado custo da fôrma e pela dificuldade de executar a "cabeça do pilar" (trecho correspondente à chegada da viga no pilar). Sempre que possível, evitar pilar de formato em "U" e, em uma segunda escala de prioridade, pilares em "L", devido ao significativo aumento de tempo gasto para montagem e desenforma

  • Analisar cada uma das plantas, assim que concluído o lançamento estrutural de todos os pavimentos (pré-formas), na seqüência de execução da estrutura, procurando visualizar o que estará acontecendo com a movimentação da fôrma entre pavimentos subseqüentes, propondo eventuais alterações que otimizem o reaproveitamento. Recomenda-se que essa análise seja feita por consultor especializado e/ou o engenheiro especialista da construtora



    Como escolher
    A definição de qual sistema utilizar está diretamente relacionada à estratégia construtiva a ser adotada, que, por sua vez, está vinculada a fatores como:

    Lançamento estrutural: tipo de estrutura (reticulada, laje plana com ou sem viga de borda), formato das lajes, altura do piso a piso, tamanho dos vãos, quantidade e dimensões dos pilares

    Repetitividade: o número de repetições previstas implica a definição dos materiais, levando em conta a durabilidade frente às solicitações de montagem e desmontagem repetidas vezes e à amortização do custo inicial de implantação

    Velocidade de execução: quando o cronograma prevê a execução da estrutura com velocidade, por exemplo, de uma laje por semana, pode-se pensar em um sistema misto, com possibilidade de ser viável financeiramente alugar um cimbramento que permita grande produtividade da mão-de-obra de montagem. Por outro lado, caso o cronograma preveja a execução de uma laje a cada 20 dias, dificilmente a locação será viável, devendo-se estudar a utilização de cimbramento de madeira fabricado na obra para comparação de custos

    Conhecimento das alternativas disponíveis no mercado e da disponibilidade: para estudar alternativas deve-se, necessariamente, conhecê-las e estar atualizado sobre a disponibilidade do equipamento na época prevista de utilização

    Equipamentos de movimentação: dependendo do sistema de fôrma em estudo, pode ser um fator limitante. Um molde de fôrma de aço, em função do peso dos componentes, normalmente necessita de grua ou guindaste para movimentação das peças

    Especificação de acabamento superficial do concreto: esse fator pode direcionar a definição do sistema a ser adotado, com destaque para o material do molde da fôrma

    Outros fatores: as etapas previstas para execução da estrutura, o espaço disponível no canteiro, as características do solo onde serão apoiadas as escoras, dentre outros, são fatores que podem influir na definição do sistema de fôrmas



    Projeto de fôrmas






    Paulo Assahi

    Projetista de fôrmas e diretor
    da Assahi Engenharia




    Como deve ser o entrosamento e comunicação entre o projetista de estruturas e o construtor?

    Eu sou normalmente convidado a participar desde a elaboração do projeto estrutural, na fase chamada de pré-fôrma. O projetista de fôrmas deve ter uma visão um pouco diferente do projetista estrutural, que é a visão de quem vai construir e dá sugestões que facilitem a execução. É tentar chegar a uma padronização, sugerir alguma mudança da geometria do pilar, eliminação ou acréscimo de vigas e assim por diante, para melhorar a construtibilidade da estrutura.

    Sempre com o objetivo de racionalizar o sistema de fôrma?

    Se conseguirmos projetar a estrutura de tal maneira que seja possível reaproveitar os elementos da fôrma o maior número de vezes, cada reaproveitamento é uma grande economia. A fôrma é absurdamente cara para ser usada uma única vez. Mas, se é usada dez vezes, seu preço cai para 10%. Se puder fazer 20 reaproveitamentos, melhor ainda, desde que o material utilizado comporte esse número. Então, o enfoque é mudar a geometria da estrutura na elaboração do projeto, para buscar maior padronização e poder reaproveitar.

    Quais os cuidados para se projetar uma fôrma que gere eficiência?

    Deve-se elaborar o processo de produção da estrutura para que a montagem e o manuseio sejam feitos do jeito mais rápido e prático possível, e estruturalmente correto, para que não deforme durante a concretagem. É feito um dimensionamento peça por peça e passamos isso em um desenho de fácil compreensão aos carpinteiros. Se eles tiverem de fazer uma única conta durante a fabricação, existe o risco de sair algo errado. Nós fornecemos todos os números e desenhos de fácil leitura. Preparamos um material com linguagem e apresentação visualmente muito clara.

    Há muitos erros de interpretação no canteiro de como montar essas fôrmas?

    A fôrma tem de ser montada, desmontada, transportada, ou seja, tem de ser manuseada. E durante o manuseio ocorrem a maioria dos problemas. Operacionalmente, a montagem é uma tarefa bastante simples. Partindo-se do princípio de que todas as peças estão com medidas exatas, basta exigir que elas sejam montadas de tal maneira que não abra frestas e não remonte.

    Precisamos também orientar e exigir para que sejam aprumadas, alinhadas e niveladas. Infelizmente ainda não inventamos um pilar auto-aprumante. Alguém tem de aprumar. A viga também não se auto-alinha, não se autonivela. Eu brinco na obra que sou o manual de utilização ao vivo e em cores. Há uma necessidade de o projetista ir à obra junto com o pessoal da produção, o mestre ou o encarregado, e complementar essa informação de como manusear durante as primeiras montagens. É um serviço de projeto e de assessoria técnica.

    A facilidade de montagem depende do projeto dessa fôrma?

    É fundamental. Quando se faz um projeto, há vários objetivos. Um deles é fazer uma fôrma muito prática, fácil de montar, desmontar e transportar, com o objetivo de aumentar a produtividade. Outro objetivo é fazer com o menor consumo de material, ou seja, fabricar a fôrma mais barata em termos de material. Mas somente com esse enfoque, o sistema de fôrma se transforma em algo extremamente difícil de montar. Por exemplo, há várias maneiras de cimbrar essa laje. Uma delas é por meio de uma escora simples, só que ela não pára em pé.

    Embora seja uma solução mais barata do que as torres, durante a fase de montagem haverá instabilidade e começam as famosas gambiarras. Coloca-se um sarrafo, um preguinho, um araminho para mantê-las em pé, o que prejudica a produtividade. Vejo com preocupação que, devido à acirrada concorrência, alguns fornecedores de fôrmas e equipamentos metálicos são obrigados a fornecer produtos ou serviços nem sempre ideais.

    Isso prejudica a qualidade e a produtividade da fôrma. Digo sempre que os profissionais da área devem oferecer o sistema mais econômico, que atende a todas as necessidade de qualidade do produto final (moldagem da estrutura de concreto), e não a fôrma mais barata.



    DEBATE

    As fôrmas evoluíram nos últimos anos?

    Ubiraci Espinelli Lemes de Souza - Tanto tecnicamente quanto economicamente, é um serviço que tem se modificado e em que houve muita racionalização. Há 30 anos, trabalhávamos com madeira serrada e hoje há sistemas de fôrmas. Ainda tem muito a ser melhorado, porque é um processo contínuo de atender melhor os usuários. Em termos econômicos também evoluiu. A fôrma era um item oneroso, mas, percentualmente, caiu um pouco nos últimos anos.

    Marcelo Corrêa - Mas a queda do preço não foi em função de uma racionalização. Trabalhamos com locação e, se há estoque e não se aumenta o consumo, é óbvio que o preço não aumenta. E houve a entrada de novas empresas. Então, aumentou o estoque do mercado e não houve aquele boom de construção que se esperava. Por isso o preço/m2 caiu. Se houver uma recuperação do PIB da construção, com certeza o preço da fôrma vai subir, acompanhando o que houve com o aço, que é a matéria-prima do nosso produto.

    Agora, quanto à qualidade, todas as empresas que trabalham com sistema de fôrma possuem sistemas que estão exatamente no mesmo nível do que se encontra fora do Brasil.

    Esse preço menor não teve reflexo na qualidade do produto?

    Corrêa - Não. Nós tivemos de nos contentar em não ter um retorno sobre capital investido. Quando se aluga, em vez de colocar o dinheiro no banco, coloca-se em um determinado produto para que retorne acima do que se teria se tivesse em uma aplicação financeira. O que todas as empresas estão tendo é um retorno abaixo da aplicação financeira. Se a gente soubesse há alguns anos o que iria acontecer, provavelmente não existiriam essas fôrmas para alugar. Quanto à racionalização, tem uma coisa que a gente ainda se depara no Brasil: o porque de não se conseguir atingir o mesmo nível de produtividade que se encontra na Europa e nos Estados Unidos, se temos o mesmo sistema de fôrma e mão-de-obra.

    Souza - O projeto é diferente.

    Corrêa - Essa é a questão. Não trabalhamos com o mesmo projeto. Quando se observam as obras em São Paulo, não se vê sistema de fôrmas, há apenas sistema de escoramento. Sistema de fôrma de pilar tem muito pouco, porque o projeto não é adequado. Na Europa e nos Estados Unidos, só existem vigas quando há, realmente, uma necessidade estrutural para se ter uma viga.

    Francisco Vasconcellos - Eu não acho que o problema seja esse. O problema está em projeto, mas não é, necessariamente, ter ou não viga. No Brasil não se faz coordenação modular, esse é um ponto que não se ataca de forma objetiva. O nosso problema é a viga a partir do momento em que há um sistema de fôrma que não contemple a viga. Mas essa é uma visão que limita a questão à viga. Porque, para se fazer uma estrutura sem viga, há outros gastos na estrutura que devem ser levados em conta. Há casos em que pode ser mais viável ter uma produtividade menor de fôrma, mas ter outros custos menores.

    Onde está o problema?

    Vasconcellos - Está na estrutura que se projeta sem levar em consideração uma série de aspectos - e isso, muitas vezes, não é culpa do projetista. Pode ser, por exemplo, do próprio empreendedor que muitas vezes impõe determinadas condições ao projetista, que não tem o que fazer. Existe uma série de construtoras que usa o sistema de fôrma industrializada da melhor forma possível e, por isso, obtém índices de produtividade altíssimos. Mas também existem, e eu diria que é a grande maioria, empresas que usam o mesmo sistema de fôrmas e não têm nem a metade da produtividade.

    Essa orientação não é dada claramente pelo pessoal comercial dos fornecedores. Eu conheço várias construtoras que não usam esses sistemas de jeito nenhum. Eu acho o sistema genial e uso sempre que posso, mas sei como usar o sistema. E não foi a empresa que me ensinou a usar. Foi quem usa direito, dois ou três consultores que falaram onde tem problema, os cuidados.

    Falta orientação para os fornecedores?

    Vasconcellos - Quando as empresas entraram no mercado, em uma época em que se esperava que a construção civil fosse crescer, foi criada uma estrutura comercial-técnica muito forte. Mas a grande maioria dessas estruturas foi desmanchada, porque não tinha consumo. Custa caro manter um profissional para fazer esse trabalho de orientação. Na verdade, o que se tem hoje é vendedor que vai vender o produto. E aí ele fala o que o cliente quer ouvir, se ele consegue a produtividade máxima na Europa, ele vai falar que a mesma produtividade vai ser conseguida no Brasil.

    Corrêa - Há um ruído de comunicação. A produtividade que se divulga sobre um sistema é atingida na condição ideal. Se existe uma viga, isso é um índice que se tem de somar. Claro que tem de colocar, no outro lado da balança, o que a eliminação da viga pode implicar em outros custos. E isso nós já estudamos com diversos calculistas, ou seja, em quais situações se poderia eliminar a viga de borda. E, muitas vezes, não se eliminou porque a incorporação não queria por causa do arremate na fachada. Não havia acréscimo de custo de concreto e mesmo assim não aceitavam.

    Alexandre Pandolfo - Esses números se viabilizam em condições ideais, mas infelizmente há apenas projetos com condições ideais. Tem uma outra questão importante que não pode passar em branco, é que, quando se fala em estrutura de concreto. O sistema de fôrmas briga com dois players muito pesados: o concreto e o aço. E nós fomos achatados pelo preço e por índices que tiveram uma puxada muito mais agressiva do que a nossa.

    A solução proposta por vocês seria mudar a forma de pensar a construção no Brasil? Sem vigas, por exemplo?

    Corrêa - Não falo em tirar, mas que se deva, pelo menos, fazer a conta. Pode ser que, em determinadas situações, chega-se à conclusão de que a viga é a melhor solução. Mas via de regra essa conta não é feita.

    Vasconcellos - Você está tocando nos pontos certos, mas eu não concordo com as justificativas. Deve-se levar em conta a questão cultural, é algo que não dá para ser ignorado. Na DP Engenharia procura-se aliar tecnologia levando em consideração a questão cultural, porque isso pesa em custo, em venda, em coisas que, como uma construtora pequena, temos de considerar, principalmente em uma época de crise. Você falou em incorporação. Uma empresa que incorpora e constrói é a responsável por vendas e, muitas vezes, isso tem ação sobre áreas técnicas.

    É claro que as construtoras mais organizadas percebem isso, mas continuam fazendo porque estão em um mercado altamente competitivo, em que elas têm de se adaptar à incorporação. Então, há um problema de concepção de projeto. Precisa-se padronizar a solução, é a coordenação modular das soluções adotadas. Com isso, organiza-se uma série de coisas. E envolve também o setor industrial, porque a construtora e a indústria devem querer fazer isso. É um problema de difícil solução e de longo prazo. E não adianta falar no ideal, porque o ideal é o mercado que a gente atua. O Brasil vai deixar de projetar com viga? Eu acho pouco provável.

    Souza - Nos Estados Unidos houve uma padronização de medidas. Em uma laje nervurada, por exemplo, há três, quatro medidas-padrão e todos os fornecedores têm de trabalhar com aquele módulo. Se o fornecedor, no final, não consegue fornecer o produto, busca-se outro fornecedor. Não se tem medo de buscar uma solução racionalizada porque não se depende de um sistema com dimensão particular. Eu acho isso inteligentíssimo. Não só para o construtor mas para o fornecedor. É mais gente especificando. E falta um pouco dessa inteligência no Brasil - até mesmo normativa. Agora, quando se fala em modulação de sistema de fôrmas, pensa-se muito no andar-tipo. Eu tenho uma preocupação particular com a periferia, porque é onde está cerca de 30% a 40% do volume da estrutura com produtividade muito baixa.

    Até que ponto há auxílio do fornecedor no canteiro?

    Pandolfo - Todas as empresas, principalmente as que participam da Abrasfe (Associação Brasileira das Empresas de Sistemas de Fôrmas e Escoramentos), têm tentado ter parâmetros de atendimento ao mercado, como disponibilizar ao cliente instruções na forma de catálogo, auxílio técnico, projetos, orientações, supervisão de montagem, para atingirmos aqueles índices potenciais de produtividade ou tentar chegar o mais próximo possível. Isso faz parte da prestação de serviço de engenharia. E tem de ter uma interface com os calculistas, verificando juntas de concretagem, velocidades verticais de lançamento de concreto, reescoramento - até porque, com a mudança de norma, essa responsabilidade pesa mais sobre os escritórios de cálculo. As grandes empresas podem disponibilizar uma série de ferramentas, como simulações de cargas de reescoramento, sempre para permitir melhor desempenho.

    Houve um certo recuo das construtoras com relação ao sistema, ou seja, muita gente experimentou e deixou de usar?

    Souza - O projetista precisa aprender mais tecnicamente. Tem de haver uma padronização das fôrmas que envolva todos os fornecedores, para que não haja receio de se apostar no sistema. Agora, não custa nada o projetista saber que ele pode mudar um pouquinho a dimensão de um pilar para menos e outra para mais e diminuir o número de tirantes/m2 em 20%. Não é algo que atrapalhe o projeto dele. Acho que os projetistas precisam melhorar, assim como toda a integração da cadeia: construtor, projetista, fornecedor de fôrmas, mão-de-obra, empreiteiro, incorporador, legislação - todos têm de trabalhar em conjunto.



    PRODUTOS


    Pashal

    Aplicação: paredes, pilares, blocos de fundações, cortinas, estações de tratamento de água e esgoto, reservatórios, piscinas e peças pré-moldadas
    Componentes: painel metálico modular com revestimento fenólico, de 1,025 e 1,25 m de altura, e largura entre 0,10 e 1,10 m (com variações a cada 50 mm). Há, ainda, painéis modulares (FV) com revestimento de madeira compensada, altura de 2,60 m e largura de 0,40 a 0,80 m (com variações a cada 50 mm)
    Peso: 50 kg/m2 (completo com acessórios)
    Montagem: os painéis são acoplados manualmente com chaves especiais, perfis de alinhamento e travamento com barras de ancoragem
    Produtividade: 1,50 Hh/m2
    Cargas admissíveis: capacidade de carga por empuxo de 60 kN
    Reaproveitamento: mais de 100 utilizações
    Transporte: manual ou grua
    Custo/m2: não informado



    Concreform/SH Fôrmas

    Aplicação: paredes e pilares
    Componentes: chassi de aço galvanizado, conformado com perfil especial e forrado com compensado de madeira. O painel básico de 75 x 270 cm se modula com larguras de 0,45, 0,60 e 0,75 m e com alturas de 1,2 e 2,7 m
    Peso: menos de 30 kg/m2
    Montagem: a junção é feita com grampos de alinhamento, que unem e alinham os painéis simultaneamente e dispensam a operação de alinhamento com perfis. Para inserir faixas de até 15 cm de madeira são utilizados grampos Reguláveis
    Produtividade: 0,3 Hh/m2
    Cargas admissíveis: até 60 t/m2
    Reaproveitamento: 60 vezes
    Transporte: manual ou mecânico
    Custo/m2: R$ 30/mês (locação)



    Hand e Form/Rohr

    Aplicação: muros de arrimo, paredes retas, reservatórios circulares, fundações, pilares, blocos, barragens, galerias, túneis, poços, adutoras e habitações modulares
    Componentes: painéis estruturados e revestidos com aço, com medidas que variam a cada 5 cm, de 0,15 x 0,60 m a 0,60 x 2,40 m. Composto, ainda, por grapa, mordaça usada com o alinhador e tensor para travamento transversal dos painéis
    Peso: 29 kg/m2 (painéis)
    Montagem: feita pela união dos painéis com as grapas. Tensores são fixados em furos nas laterais dos painéis, que devem ser alinhados com os alinhadores montados na estruturação dos painéis
    Produtividade: 0,2 Hh/m2
    Cargas admissíveis: pressão máxima de 58 kN/m2
    Reaproveitamento: pode ser reaproveitado cerca de 100 vezes
    Transporte: manual
    Custo/m2: não informado



    Orma/Ulma

    Aplicação: paredes, muros, pilares, caixa d'água, reservatórios, tanques, cortinas monoface e dupla face, grandes blocos de fundação e barragens
    Componentes: painéis de estrutura metálica de aço AE 275 B, acabamento de pintura eletrostática a pó, com contato em chapa compensada plastificada de 18 mm. Alturas básicas dos painéis de 2,70 m e 1,20 m, além de grapas de união, chapas de compensação, escoras metálicas de aprumo e tirantes de travamento
    Peso: 55 a 85 kg/m2
    Montagem: a grapa regulável é o elemento de alinhamento e união entre as peças, utilizado para a formação de conjuntos de painéis, garantindo a estanqueidade. Os elementos de acesso e segurança são parte integrante do sistema
    Produtividade: entre 0,11 e 0,25 Hh/m2
    Cargas admissíveis: de 60 a 80 kN/m2
    Reaproveitamento: até 100 vezes, sem troca do contato
    Transporte: mecanizado, com gruas ou guindastes
    Custo/m2: diárias de R$ 0,85 a R$ 1,80/m2



    Vário/Peri

    Aplicação: elementos com até 18 m de altura por concretagem
    Componentes: vigas de madeira GT 24, longarinas metálicas SRZ e acessórios como chapas de compensado plastificado, abraçadeiras e parafusos
    Peso: 5,9 kg/m (viga)
    Montagem: utiliza somente dois elementos standard de 244 e 122 cm de largura. As medidas intermediárias são executadas com a régua de união e compensação. A união é feita com longarinas metálicas e cunhas que permitem, também, alinhar os painéis
    Produtividade: variável de acordo com a obra
    Cargas admissíveis: 100 kN/m2 (em pilares) e 80 kN/m2 (paredes)
    Reaproveitamento: o reaproveitamento do sistema está relacionado à qualidade da chapa de compensado utilizada, sendo a ideal de 2,44 x 1,22 m e 18 mm plastificada. Pode durar, segundo o fabricante, até mais de 30 anos
    Transporte: grua ou guindastes
    Custo/m2: sob consulta



    SL 2000/Mills

    Aplicação: pilares, paredes, vigas, blocos, baldrames e estruturas em geral
    Componentes: painéis com estrutura metálica e chapa de compensado de madeira plastificada de 12 mm
    Módulos: 25, 40, 50, 70, 75 e 80 cm de largura e 75 e 150 cm de altura
    Peso: 33 kg/m2
    Montagem: os painéis são fixados por meio de pinos-trava de engate rápido, garantindo alinhamento, prumo e estanqueidade
    Produtividade: 0,37 Hh/m2 (montagem) e 0,20 Hh/m2 (desmontagem)
    Cargas admissíveis: Até 55 kN/m2
    Reaproveitamento: de 60 a 70 vezes (compensado) e mais de 500 vezes (estrutura metálica)
    Transporte: manual, mas pode ser preparado em módulos maiores para transporte mecanizado
    Custo/m2: locação: de R$ 0,65 a R$ 0,70/m2 (diário). Venda: de R$ 350 a R$ 450/m2 (compensado incluso nos preços)


    Bianca Antunes
    Construção Mercado 37 - agosto de 2004
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