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Palco da realeza

1/Junho/1998
Arquitetura
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TEATRO ALFA REAL
Erguido ao lado do Hotel Transamérica, no bairro de Santo Amaro, zona sul de São Paulo, o traçado simples do Teatro Alfa Real foge da excentricidade arquitetônica dos novos edifícios que surgem a cada dia na região da marginal do Pinheiros. Da sua fachada destacam-se a imensa marquise de 15 m de largura por 5,5 m de altura, a variada arborização e a profusa iluminação nas noites de espetáculo. "A intenção foi fazer uma clara referência aos belos teatros de antigamente", lembra o arquiteto Antonio Luiz Fernandes Ribeiro, um dos titulares da AIC Arquitetura e Gerenciamento, responsável pelo projeto.
Por exigência do cliente, a rede de hotéis Transamérica pertencente ao Banco Real, os arquitetos procuraram harmonizar o projeto do teatro à arquitetura dominante do hotel. No teatro, foram utilizados os mesmos materiais e elementos dos edifícios existentes, como caixilhos, texturas, revestimentos e cor.
Inicialmente, o programa previa um teatro de 900 lugares, no térreo, e outro menor no subsolo para 200 pessoas, com acessos, instalações e serviços independentes, mas a concepção foi modificada no decorrer do projeto, quando o cliente resolveu ampliar a capacidade da sala maior para 1.200 pessoas e torná-la capaz de receber espetáculos os mais variados, como peças teatrais, orquestra sinfônica, música popular, balé, coros e ópera. O projeto foi então redefinido e resultou em um teatro mais vertical, com três níveis. No piso inferior, a sala de espetáculos menor (a ser inaugurada em agosto), com foyer, bar e banheiros independentes, três camarins individuais e um coletivo, guarda-roupas e sala de máquinas. No térreo, as bilheterias, o majestoso foyer de pé-direito triplo, platéia e palco, sala de ensaio da orquestra (que permite acesso direto para o exterior e para o fosso da orquestra), sala de instrumentos e camarins com banheiros privativos. No terceiro, a platéia superior e a cabine de som e luz. Todos os ambientes foram climatizados e receberam tratamento acústico. Câmeras de TV permitem que os artistas acompanhem, dos camarins, a movimentação do palco e da platéia.
Para o projeto do Alfa Real, a AIC procurou trazer os melhores consultores nas áreas de teatro e acústica e adquirir o melhor equipamento existente atualmente no mercado internacional. Depois de elaborado o projeto básico e enviado para os consultores, o escritório passou a reunir no Hotel Transamérica artistas de várias áreas de atuação, para que observassem o projeto e sugerissem aperfeiçoamentos. Dessas reuniões nasceram acréscimos importantes, como o acesso da sala de ensaios para o fosso da orquestra, a colocação de entradas diretas de fora do teatro para os camarins ou para o palco, a conformação dos camarins com muita privacidade, portas largas e pisos emborrachados até no corredor que leva ao palco. Nesse mesmo período, os arquitetos freqüentaram muitos teatros, conversaram com técnicos e artistas e perceberam o quanto é importante para o artista manter-se isolado e confortável nos momentos que antecedem a apresentação.

O PALCO
Com o novo dimensionamento do teatro, a sala principal passou a ter um palco italiano, que pode ser amplia-do, dependendo do espetáculo apresentado. A platéia e os balcões ganharam nova conformação, de maneira a envolver o palco e permitir sua melhor exploração. As frisas foram colocadas para criar um ambiente visualmente mais rico.
Por se tratar de teatro multiuso, o projeto concebeu um fosso de orquestra capaz de deixar o piso (movimentado por elevador) em três diferentes alturas. Na primeira posição, no nível inferior, com espaço para 84 músicos, o piso se amplia sob a laje do palco, que funciona como um tipo de concha acústica. É nesse local abrigado que ficam os instrumentos que produzem maior volume de som. No nível intermediário, o elevador permite ampliar o piso da platéia e, no último, amplia o palco em 3,5 m.
Na apresentação de grandes orquestras sinfônicas, com cerca de 120 componentes, que necessariamente
têm de ficar no palco, o Alfa Real permite a montagem de uma concha acústica em poucas horas. Para evitar a dispersão do som, enormes módulos de madeira são colocados encobrindo as laterais e o urdimento (em cima do palco). Ainda nessas ocasiões, para melhor difusão do som, pode-se abrir as placas do forro em 20%, permitindo que o som suba e passe para o forro técnico. Na hora da desmontagem, os módulos que estão sobre o palco ficam na vertical e sobem; os das laterais, deslocam-se sobre rodas. A concha absorve parte do som dos instrumentos mais ruidosos, como o grupo de percussão, refletindo a outra parte. Piano e cordas ficam em cima do elevador do fosso da orquestra, bem na frente do palco.

URDIMENTO
Para a parte mecânica e a de luminotécnica do palco, a AIC recebeu a consultoria do escritório norte-americano Robert Davis. Cenários, refletores, holofotes e outros recursos cênicos ficam pendurados nos varais do urdimento, projetado com 65 varais de aço de controle manual, distribuídos com espaçamentos diferentes: de 20 cm na frente do palco e 40 cm no fundo. Esses espaçamentos são usados como recurso cênico, para proporcionar ao espectador a ilusão ótica de profundidade. O sistema de luminotécnica dispõe de 320 refletores e holofotes, todos com controle digitalizado, um dos mais completos do País.
Uma das facilidades a destacar ainda no Alfa Real é a grande doca, com elevador de carga para duas toneladas, com acesso direto ao palco. O equipamento permite o transporte não só de cenários e instrumentos mas também de artistas com problemas de locomoção ou com roupas complicadas que impedem que eles subam as escadas.

PLATÉIA
Os teatros têm um ângulo ideal de visão, a partir de um ponto definido no meio do palco, em cima da quartelada, que é a área removível e de atuação principal dos artistas. "Desse ponto, dentro da varredura de um raio de 100o - explica a arquiteta Regina Toledo, da AIC -, foram colocadas as cadeiras, dispostas em semicírculo." Cada uma das cadeiras tem uma posição diferente, com os braços dirigidos para o ponto central, garantindo que cada um dos espectadores tenha seu ângulo de visão perfeito. O escritório da Irwing Seating, fornecedor das cadeiras, recebeu o layout da platéia feito por computador pela AIC e determinou a localização e o dimensionamento milimétricos das cadeiras. Para a perfeita colocação das cadeiras na platéia, foram utilizados instrumentos topográficos. De acordo com a arquiteta, foi necessário apenas um pequeno ajuste no balcão, por conta de um desvio ocorrido na construção.
As cadeiras receberam revestimento de tecido de trama grossa e aberta, que proporciona absorção acústica. Sob as cadeiras, utilizou-se piso de vinil para facilitar a higienização; nos corredores, área de muito trânsito, o carpete, para evitar ruído.

ACÚSTICA
O consultor de acústica, Peter George, teve como preocupação básica isolar completamente o teatro dos ruídos externos, como o da chuva sobre o telhado de chapas galvanizadas, o trânsito no entorno ou as vibrações produzidas pelos trens que passam nas proximidades, e também dos ruídos internos, principalmente do ar-condicionado. Assim, a sala de máquinas ficou estruturalmente separada do resto da edificação, por meio de juntas de dilatação. O ar-condicionado trabalha com baixa velocidade e, além disso, o projeto procurou eliminar todos os ruídos que pudessem ser absorvidos pelos dutos e transferidos para a sala de espetáculos. Com essa finalidade, os dutos foram revestidos de material acústico, tanto interna quanto externamente.
Depois do isolamento acústico do prédio, a equipe de profissionais iniciou o tratamento acústico da sala de espetáculos, onde o apoio do consultor norte-americano foi fundamental. Ele fez todo o cálculo científico dos ângulos das paredes e da forma do forro, desenhados para maximizar a eficiência acústica. Como todos os teatros modernos com mais de 800 lugares, o Alfa Real precisava ter um sistema de som amplificado,
mas por estar destinado a diferentes formas de uso, precisava também ser acústico, sem amplificação. A arquiteta Regina Toledo lembra que esse conceito direcionou o trabalho do consultor, já que a aplicação de alto-falantes exige materiais absorventes, que reduzam a reverberação. No caso do Alfa Real, foi preciso dosar as participações dos diversos materiais, para que também vibrassem quando o teatro tivesse de funcionar sem o sistema de som amplificado.
A AIC optou por revestimento de madeira no auditório, por se tratar de material acústico, que absorve bem os ruídos e libera as freqüências mais altas, além de proporcionar um ambiente aconchegante ao espectador. O escritório também se responsabilizou pelo projeto de interiores, para que houvesse uma perfeita integração com a arquitetura. "Escolhemos cores intencionalmente densas, profundas, que levam à reflexão. O tom cinza, por ser uma cor discreta, foi usado internamente nas cabinas de controle de luz e som, que ficam no alto e no fundo da platéia", ensina a arquiteta Regina Toledo.
Uma arquitetura discreta e despojada esconde um dos mais modernos teatros do País. Pontos altos: a acústica e a perfeita visibilidade proporcionada a todos os espectadores
O escritório
Criado há 30 anos, a AIC Arquitetura e Gerenciamento tem um vasto currículo de obras executadas tanto no Brasil quanto no exterior, em sua maioria para o Banco Real. Segundo o arquiteto Antonio Luiz Ribeiro, até 1984 o escritório atuou muito no exterior, projetando sedes para o Banco Real em Buenos Aires, Colômbia e Paraguai, além de edifícios para usos diversos inclusive shopping centers em Assunção e Montevidéu. Constam ainda do currículo da AIC agências do Banco Real em Londres, na Costa do Marfim e no Gabão.
Atualmente, o escritório emprega 16 arquitetos e 12 engenheiros que desenvolvem qualquer tipo de projeto, além de acompanhar e gerenciar a execução das obras. "Acompanhamos nossos projetos até o fim, mesmo quando não somos contratados para gerenciá-los", afirma Antonio Luiz Ribeiro, pois essa é a única forma de evitar os problemas de final de obra, quando as construtoras tendem a simplificar os serviços.
O arquiteto afirma que, já durante o período em que trabalhava no exterior, sentia que o Brasil, mais cedo ou mais tarde, teria de buscar tecnologia fora. A idéia não era, necessariamente, trazer escritórios estrangeiros, mas consultores altamente especializados. "Observando o trabalho desses especialistas, explica, absorvemos o que nos é conveniente e nacionalizamos o que é preciso, com os nossos próprios conhecimentos. Com a consultoria, temos a medida exata para adquirir o know-how externo e o desenvolvimento técnico nacionalizado combinados." Ainda segundo Ribeiro, a vinda de escritórios estrangeiros de projeto é problemática, pois estão acostumados a trabalhar com técnicas e materiais diferentes, que quase nunca se adaptam à nossa realidade. E o cliente termina pagando mais caro, pois traz o escritório de fora e ainda precisa contratar um brasileiro para fazer as adaptações necessárias.
Equipe técnica
Arquitetura: AIC-Arquitetura e Gerenciamento
Arquitetos responsáveis: Antonio Luiz F. Ribeiro, Regina P. Toledo, Ana Maria F. Afonso, José Waldemar Arnoldi Jr., Teresa Mitsuco Ishida, Vera F. Lima.
Arquitetos colaboradores: Alessandro Mariano, Cássio Norio Hosomi, Cristiane Py, Denise Bellinati, Renato Papa Tort.
Consultorias - teatro, mecânica e iluminação cênica: Robert Davis Inc.; Acústica: Peter George Associates Inc. Acústica e Som
Gerenciamento: Vera Cruz Empreendimentos Imobiliários
Cálculo estrutural: Escritório Técnico Júlio Cassoy e Mário Franco Engenheiros Civis Ltda.
Estrutura metálica: Jorge Zaven Kurkdjian e Cia. de Projetos
Instalações: MHA Engenharia de Projetos Ltda.
Fundações: Apoio Assessoria e Projeto de Fundação
Instalações (elétrica, hidráulica e ar-condicionado): MHA Engenharia de Projetos
Construção: JHS Planejamento e Construção
Comunicação visual: MD Comunicação

Ficha técnica
Ano do projeto: 1996
Ano da construção: 1997/98
Local: São Paulo
Cliente: Instituto Alfa Real de Cultura
Área do terreno: 3.951,60 m2
Área construída: 5.581,79 m2
Capacidade: 1.212 pessoas
Principais fornecedores: luminárias (Lustres Projeto e Lumini); pisos emborrachados, carpetes e vinílicos (Plurigoma); ferragens (Yale La Fonte e Dorma); forros (Di Gesso) e Armstrong); mobiliário (L'Atelier e Remantec); revestimento vinílico de paredes (MH Abucham); mármores e granitos (Pedras Passinho); marcenaria (Z&M Marcenaria Especial); caixilho (Esquadriline); piso do palco, painéis de madeira e forro de madeira (Cox Port); louças e metais sanitários (Deca); revestimentos cerâmicos (Portobello); portas acústicas (KPK e Vibrason); serralheria (Latão Arte), e tecidos (Tecelagem Lady); cadeiras para platéia e balcão (Irwin Seating Company e cadeiras das frisas (Só Cadeiras); elevadores (Hall Stage/SUR); elevador da orquestra e mecânica cênica (Pook Diemont & OHL, Inc); sistema sonoro (Basic Sound); revestimento da marquise (Alubond), e iluminação cênica (ETC (Electronic Theatre Controls).
Éride Moura

Veja também

aU - Arquitetura e Urbanismo :: aU Educação :: ed 244 - Julho de 2014

TCU de Alagoas, de João Filgueiras Lima, Lelé