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Porcelanato, grés, azulejo

20/Abril/2005
O que diferencia as cerâmicas? Conheça as características e o comportamento
de cada revestimento antes de especificar


O Brasil ocupa a quarta posição mundial na produção de revestimentos cerâmicos, perdendo apenas para China, Itália e Espanha. Não há nada de anormal em sermos um dos países onde mais se especifica esse tipo de acabamento para pisos e fachadas. O que impressiona é o fato de grande parte das patologias decorrer da falta de projeto adequado e conhecimento das características técnicas dos revestimentos cerâmicos, que dependem da correta especificação e assentamento para oferecerem o desempenho ideal.

Classificados de acordo com a porosidade do biscoito (base) e pelo método de fabricação, os revestimentos cerâmicos podem ser do tipo porcelanato, grés, semigrés, semiporoso, poroso, azulejo e azulejo fino. "A absorção de água é um indicativo da resistência mecânica de um revestimento cerâmico", explica Edgar Pickler, coordenador de planejamento da Eliane. De acordo com a norma, para cada grupo de absorção de água (porosidade) é associada uma carga de ruptura mínima e um módulo de resistência à flexão mínimo (veja tabela 1).

"Peças mais porosas resistem menos à ruptura", explica o engenheiro Eduvaldo Paulo Sichieri, professor do departamento de arquitetura e urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos da USP. Segundo Sichieri, tão importante quanto conhecer as propriedades dos revestimentos cerâmicos é saber especificá-los corretamente de acordo com o local de uso. Os revestimentos cerâmicos devem, antes de qualquer coisa, resistir às exigências das cargas a que serão submetidos e que dependem do local da aplicação. "As exigências de uma fachada ou parede são bem menores do que a de um piso, que está submetido a maiores esforços mecânicos", complementa.
Para cerâmica vermelha ou branca, o importante é levar em conta as propriedades do material, ter um bom projeto de paginação e executar o assentamento corretamente



Vermelha x branca
No que se refere à aparência, os materiais cerâmicos são encontrados em diferentes padrões, texturas, formatos e cores. "Cerâmica vermelha, por exemplo, é uma denominação muito utilizada para fabricação de peças estruturais (tijolos e telhas), enquanto cerâmica branca é um termo mais utilizado para fabricação de revestimentos planos", explica Pickler. As diferenças, segundo ele, estão na tecnologia empregada: para a cerâmica branca o processo produtivo é mais automatizado do que para a vermelha. Além disso, a fabricação da cerâmica branca faz uso de matérias-primas melhor beneficiadas e com um custo maior, que deixam a base do produto final com uma cor mais clara.

No entanto, segundo o professor Sichieri, a NBR 13818 não diferencia cerâmicas para revestimento de base vermelha ou branca. Deve-se, portanto, esclarecer aos usuários que o importante é o projeto, a especificação em função do local de uso - com o conhecimento das propriedades - e o assentamento correto. Dizer que cerâmica branca é melhor do que a vermelha sem levar em consideração esses esclarecimentos é induzir o consumidor a rejeitar um produto apenas pela cor e não pelas características. "O que importa é entender em que grupo de absorção a cerâmica se enquadra, se atende aos requisitos mínimos da norma e se é adequada ao ambiente", afirma Sichieri. Como pode ser observado nas tabelas 1 e 2, a classificação dos revestimentos cerâmicos é feita pelos grupos de absorção de água (porosidade) e pelas exigências aos atendimentos das cargas de ruptura e módulo de resistência à flexão.

Pisos
Diferente da fachada, o piso cerâmico requer peças com elevada resistência mecânica, já que estará submetido a maiores esforços. Outra característica importante para os pisos é o COF (sigla em inglês para Coeficiente de Atrito Úmido). Revestimentos com coeficiente de atrito superior a 0,4 são ideais para evitar o escorregamento. No entorno de piscinas e em ambientes públicos, esse valor deve ser superior a 0,7. "Se quisermos um revestimento cerâmico resistente a riscos - ideal para halls de edifícios, por exemplo - devemos optar por um produto com dureza Mohs igual a 7", explana Sichieri.

Cerâmicas do grupo BIIb saem em torno de R$ 10,00/m2, enquanto que o porcelanato pode sair por R$ 150,00/m2. Sichieri indica o Semigrés ou o Semiporoso - dos grupos BIIb ou BIIa - para ambientes domésticos. Garagens e cozinhas devem receber aplicação de revestimentos (com resistência mecânica mínima) do grupo BIIa.

Devido à elevada resistência mecânica e durabilidade, o porcelanato (grupo BIa) e o grés (grupo BIb) são indicados para ambientes submetidos a cargas elevadas, como supermercados, shoppings e oficinas. "Isso não impede que o usuário opte pelo porcelanato tanto para o piso quanto para a parede de sua residência", diz Sichieri. Nesse caso, o usuário estará superdimensionando o revestimento. O cliente deve estar consciente de que está fazendo essa opção porque quer um padrão melhor na residência, o que não significa melhor qualidade.

Resistência
Somente após especificar o revestimento pelo grupo de absorção de água é que devem ser avaliadas as características de superfície. A classificação da resistência à abrasão (veja tabela 3) para peças esmaltadas é dada pelo índice PEI, sigla que em inglês significa Porcelain Enamel Institute, nome do instituto que realizou os testes de abrasão pela primeira vez.


Para o engenheiro Otávio Luiz do Nascimento, especialista em patologias e consultoria para recuperação e restauração de fachadas de edifícios, não há, nas normas vigentes, uma classificação exata da cerâmica quanto ao desgaste. "Trata-se de um assunto polêmico já que o ensaio para medir a resistência à abrasão é muito superficial, baseado apenas na análise visual", diz. A norma, segundo Nascimento, deveria relacionar a dureza Mohs com dois outros valores: as resistências ao risco e à abrasão. É preciso, contudo, tomar cuidado. "Pode-se questionar o método de ensaio para medir a dureza, mas o experimento mede satisfatoriamente a resistência ao risco", diz Sichieri.
A cerâmica para fachadas não precisa ter alta resistência mecânica, mas é imprescindível que a expansão por umidade seja inferior a 0,6 mm/m

Essas características da superfície irão complementar a especificação feita pelo grupo de absorção de água. Superfícies submetidas a um tráfego intenso de pessoas devem ser mais resistentes ao desgaste - PEI 4 ou 5, para superfícies esmaltadas. "Infelizmente, na maioria das vezes, os revestimentos cerâmicos são comercializados apenas pelo PEI, o que faz com que o consumidor associe a qualidade do produto à resistência à abrasão ou desgaste do esmalte", critica Sichieri. Ele recomenda a avaliação das outras características do revestimento antes da compra.

As NBR 13754 e NBR 13755, relacionadas ao assentamento de revestimento cerâmico com argamassa colante, indicam alguns parâmetros para a execução de juntas de movimentação em pisos. "Em pisos internos, elas devem ser feitas a cada 32 m2, ou sempre que uma das dimensões do revestimento for maior do que 8 m", esclarece Nascimento. Em pisos externos, segundo a Norma, tais juntas devem ser feitas a cada 20 m2 ou sempre que uma das dimensões do revestimento for maior do que 4 m.

Área externa
Nos revestimentos cerâmicos para fachadas, mais importante do que a resistência mecânica é a EPU (Expansão por Umidade) do material que, segundo a NBR 13818/97, deve ser igual ou inferior a 0,6 mm/m. Por estar associada com a qualidade da queima da cerâmica (temperatura e tempo de permanência), a EPU independe da absorção de água da cerâmica. "Se a argila da matéria-prima for queimada corretamente, a água poderá entrar nos poros do material, mas não penetrará no interior dos grãos de argila", diz Sichieri. A penetração da água no interior dos grãos da argila a faz expandir ou estufar.

Por não estarem submetidas a esforços tão intensos quanto os do piso, as placas cerâmicas empregadas em paredes ou fachadas não precisam ter alta resistência mecânica, podendo ser do grupo BIII, como os azulejos. Nos anos 80, segundo Sichieri, os fabricantes induziam os usuários a optarem por placas do grupo BIIa. Era uma maneira de evitar a penetração de água nos poros, já que os grãos de argila não eram queimados corretamente.

Atualmente, segundo Sichieri, o conceito de que uma peça que absorve menos água expande menos é uma inverdade. "Temos tecnologia para fabricar peças porosas, como azulejos, com maior aderência na argamassa de assentamento, com tamanhos maiores e baixíssima expansão por umidade."

O coeficiente de atrito de pisos deve ser superior a 0,4, para impedir escorregamentos


Relacionada à execução de juntas de movimentação em fachadas, a NBR 13753 recomenda a execução de juntas horizontais espaçadas no máximo a cada 3 m (ou a cada pé-direito) e na região de encunhamento da alvenaria e juntas verticais a cada 6 m. "A realização de um projeto específico de dimensionamento de juntas é fundamental, já que cada fachada possui um determinado comportamento que requer uma adaptação específica de cada material", explica Nascimento.

O desprendimento das placas cerâmicas - uma grave patologia que, além de danificar a estética do edifício, pode provocar acidentes - pode ser evitado com uma paginação adequada e com a previsão de juntas estruturais e de movimentação. Além disso, segundo estudos realizados pelo grupo de pesquisa Arqtema (Arquitetura, Tecnologia e Materiais), do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da USP, em São Carlos, algumas argamassas colantes do tipo ACII, comumente especificadas, perdem cerca de 65% da aderência quando ensaiadas a temperaturas acima de 400C. Em fachadas, o ideal é utilizar argamassas ACIII e/ou ACIII-E. Essa tipologia é classificada de acordo com a NBR 14081/1988 em ACI (para interiores), ACII (para exteriores) e ACIII (para situações onde se requer maior aderência e flexibilidade).

Segundo a Arqtema, elas devem ser indicadas apenas para cerâmicas dos grupos de absorção de água BIIa, BIIb e BIII. Porcelanatos e grés (dos grupos BIa e BIb) requerem argamassas especiais.

Fachadas ventiladas
No Brasil, ainda são raros os projetos com fachadas ventiladas, sejam cerâmicas ou de qualquer outro material. Diferente dos revestimentos tradicionais aderidos, em que as peças são fixadas ao substrato com argamassa ou colas, as fachadas ventiladas oferecem melhor isolamento térmico ao edifício, graças à circulação de ar na camada formada entre o revestimento e as paredes, ou pelas juntas abertas. "O efeito chaminé criado permite a entrada inferior do ar frio e saída superior do ar aquecido", explica a arquiteta Érica Cristina Cunha, professora de projeto e tecnologia do Centro Universitário Barão de Mauá, em Ribeirão Preto (SP).

Além de melhorar o isolamento térmico, as fachadas ventiladas, segundo Érica, trazem vantagens com relação ao sistema mecânico. Uma das quais é a possibilidade de uso de peças cerâmicas de grandes dimensões, o que não poderia ser feito com a fixação pelo sistema colante, principalmente com as argamassas comumente utilizadas. "Teríamos que utilizar uma argamassa à base de epóxi que, apesar de ser quase uma cola, não tem desempenho garantido pela norma", justifica. Outras vantagens com relação à fachada ventilada, segundo a arquiteta, são a facilidade na troca de peças com problemas - basta desparafusar ou desencaixar - e o fim do problema do desplacamento (veja boxe sobre patologias) por falta de aderência da peça.




Patologias

De acordo com Otávio Luiz do Nascimento, a qualidade e durabilidade do revestimento cerâmico dependem da correta execução e do planejamento de todas as fases do processo construtivo, como a seleção de materiais (peças cerâmicas, azulejos, pastilhas, argamassas, rejuntes e selantes), projeto da estrutura, disposição das juntas, planejamento dos prazos, definição dos procedimentos de execução e de controle. Uma mão-de-obra devidamente treinada, o estudo e ensaio prévios do sistema minimizam e evitam, segundo ele, problemas futuros.

Veja as principais patologias a que estão suscetíveis os revestimentos cerâmicos.

Destacamento: para evitá-lo, deve-se projetar juntas de dilatação, especificar a argamassa colante correta (em função da absorção da placa e local de uso), usar rejuntes flexíveis e realizar o assentamento com ferramentas adequadas e mão-de-obra treinada. Além disso, a base - não pode ter imperfeições


Desgaste: a escolha do piso deve levar em conta o fluxo de pessoas e a resistência à abrasão necessária

Riscos: a especificação de placas rústicas ou com esmalte com dureza Mohs superior ou igual a 7 Mohs evita essa patologia, muito comum na entrada de edifícios

Eflorescência: são manchas brancas na superfície causadas pela água (migrando do interior da placa) que carregam sais solúveis da argamassa ou do concreto do contrapiso. Impermeabilizar alicerces e contrapisos, evitar vazamentos em paredes e utilizar rejuntes impermeáveis são maneiras de evitar essa patologia, que pode ter origem em vazamentos de canos, umidade dos terrenos ou penetração inicial por meio de rejuntes mal executados

Gretamento: são fissuras na superfície esmaltada resultantes da diferença de dilatação entre o biscoito e o esmalte. Nesse caso, o ideal é que a massa dilate menos do que o esmalte


Fachada aerada

Após o retrofit, a fachada desse edifício comercial, em Belo Horizonte, ganhou um sistema de revestimento aerado, em que placas de porcelanato de 20 x 20 cm foram instaladas afastadas do revestimento origina. "A escolha do sistema foi feita após um estudo criterioso do comportamento das peças em função da carga de vento e movimentação térmica", explica Otávio Luiz Nascimento, diretor da Consultare. Ele explica que, além de melhorar a estética do edifício, a solução minimizou o barulho e os impactos causados pela reforma.


Protótipo de fachada ventilada

Um protótipo desenvolvido pela Dallera, empresa italiana especializada em projetos de fachadas ventiladas mostra um sistema construtivo ainda pouco utilizado no Brasil. Fabricado sob medida para cada caso, o revestimento, afastado do substrato, é fixado a requadros metálicos instalados na estrutura. O protótipo revela o sistema visível, no qual a fixação do porcelanato é executada com grampos aparentes, pintados da cor do revestimento externo.

No sistema oculto, mais complexo e com maior custo do que o visível, a fixação da peça cerâmica não é aparente.

Serviço: o protótipo pode ser visitado no showroom da Cecrisa em São Paulo: (11) 2222-6656 - e em Florianópolis: (51) 5556-8954


Porcelanato: a cerâmica de alto desempenho



Baixa absorção de água (abaixo de 0,5%), elevada resistência ao desgaste físico e químico e elevada resistência mecânica (350 kgf/cm2 a 450 kgf/cm2). Segundo o engenheiro Otávio Luiz do Nascimento, as vantagens que o porcelanato apresenta com relação aos revestimentos de cerâmica comum esmaltada resultam do emprego de matéria-prima selecionada (argila, feldspato e corantes) e de uma tecnologia avançada de produção, na qual as peças são queimadas a temperaturas superiores a 1.230oC e submetidas a pressões de compactação 50% maior do que aquelas empregadas no processo da monoqueima. "Além disso, a moagem é finíssima", acrescenta Nascimento.


Com uma estrutura compacta e vitrificada, massa com características homogêneas e baixa absorção de água, o porcelanato pode ser empregado sem esmaltação, com acabamento polido ou rústico. "É um produto do grupo BIa, ou seja, possui altíssima resistência mecânica", explica Eduvaldo Paulo Sichieri, professor do departamento de Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos. A baixa absorção, responsável pela elevada resistência do produto, exige, no entanto, a utilização de argamassa com maior aderência. "Para porcelanato e grés (grupos BIa e BIb), devemos utilizar argamassas colantes industrializadas específicas", diz Sichieri.


Texto original de Valentina Figuerola
Téchne 96 - março de 2005