Problemas para demolir | PiniWeb

Notícias

Problemas para demolir

23/Março/1998
Entrevista
Sergio Vieira da Silva
O calculista Sergio Vieira anda irri-tado. Não suporta mais assistir à TV ou abrir jornais e revistas e dar de frente com notícias negativas sobre a Engenharia brasileira. Profissional do tempo em que técnicos estrangeiros vinham conhecer de perto nossos avanços na utilização de estruturas de concreto armado, Vieira resume os motivos para os recentes problemas ocorridos em construções de todo o Brasil: "Falta de qualidade no projeto, execução e manutenção das obras".
Formado pela Escola de Engenharia da Universidade Mackenzie, o projetista trabalhou em alguns dos mais respeitados escritórios paulistas de cálculo estrutural antes de fundar, em 1963, a SVS Engenharia de Projetos. Com mais de 2,8 mil trabalhos no currículo e 17 milhões de m2 de área construída, Vieira figura entre os profissionais mais experientes do Brasil quando se trata de projeto estrutural. Esse, talvez, seja o motivo de tanta indignação.
"Hoje em dia, qualquer um sai por aí projetando em computadores e fazendo uma série de asneiras", desabafa o calculista. A afirmação pode transparecer resistência aos avanços tecnológicos ou um apego desmedido ao passado. Não é bem assim. A SVS foi uma das pioneiras em aplicações gráficas por computador no Brasil. O próprio Vieira é pós-graduado em Processamento de Dados pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. "A informática não vai resolver o problema da má-formação dos engenheiros", diz.
Nesta entrevista a Construção, o diretor-superintendente da SVS elege a reforma curricular do curso de Engenharia - ele defende uma especialização obrigatória de dois anos para melhorar a formação técnica dos engenheiros - e a prática das auditorias de estruturas como duas importantes medidas para acabar com tragédias como a ocorrida em fevereiro no edifício Palace II, no Rio de Janeiro. Nesse incidente, Sérgio Vieira sustenta uma posição polêmica: discorda da demolição do edifício, realizada alguns dias após o primeiro desabamento.

Cerca de 30% do faturamento da SVS é obtido a partir de correções de estruturas de concreto mal projetadas. Por que os erros ocorrem com tanta freqüência?
Há muita gente projetando sem competência ou experiência para isso. Quando eu fundei a SVS, há 35 anos, havia dez escritórios de projeto estrutural em São Paulo. Hoje, são cerca de quinhentos. Grande parte dessas empresas não possui profissionais capacitados para a função. São pessoas que adquirem um computador, um software de cálculo e acreditam que podem projetar sem interpretar o que a máquina está processando. É por isso que chegam tantos clientes ao meu escritório com problemas em estruturas. O pior é que o conserto tem que ser discreto, sem chamar a atenção de ninguém, para não queimar a imagem do empreendimento. No fundo, estamos acobertando um monte de besteiras.

Mas quem comete tais besteiras são engenheiros formados, não é?
Sim, mas há outro problema. Faltam dois anos de especialização no curso de Engenharia. Após cinco anos de estudos, o aluno deveria sair apenas como bacharel. Nossa formação é muito generalista, aprofunda pouco as questões. Eu mesmo só me tornei engenheiro depois de trabalhar em diversos escritórios de projeto. Temos que comprar essa briga com o Ministério da Educação.

A proposta do senhor pode demorar algum tempo para se concretizar. Não existe uma medida de curto prazo para melhorar a qualidade das obras no Brasil?
Todos esses desabamentos de estruturas, como os ocorridos em Guaratuba-PR, São José do Rio Preto-SP, Rio de Janeiro e São Caetano do Sul-SP (no dia 12 de março, a marquise de um minisshopping despencou no centro da cidade, matando duas pessoas), refletem a falta de qualidade nas fases de projeto, execução e manutenção das obras. Para cada uma dessas etapas há uma solução diferente. No caso do projeto, uma boa saída é promover auditorias de estruturas que acompanhem todo o processo de elaboração. Não se trata de fazer uma crítica sobre a qualidade do projeto ou o partido adotado, mas gara
ntir para a construtora que tudo está dentro dos padrões normais. Tanto que a concepção geral da obra e os conceitos de projeto não devem nem ser questionados, salvo se forem origem das possíveis falhas. O auditor corrige apenas o que está errado ou compromete a segurança. Detalhe: esse trabalho não deve ser feito após a finalização do projeto pelo calculista responsável.

Por quê?
As brigas são quase inevitáveis. Ninguém gosta de modificar o que já está pronto e, por outro lado, alguns auditores costumam enxergar problemas demais apenas para impressionar o construtor. Fui chamado vários vezes para dar o meu parecer e desempatar essas brigas. Em verdade, o auditor tem de acompanhar a elaboração do projeto e, no caso de problemas, lavar a roupa suja em casa. O cliente nem precisa ficar sabendo. Para o construtor é ótimo, pois ele ganha a co-responsabilidade de um outro profissional capacitado e fica mais tranqüilo em relação à segurança dos futuros usuários.

O Brasil possui empresas suficientes, em quantidade e qualidade, para prestar serviços desse nível?
Sem dúvida. Não faltam empresas, mas procedimentos corretos. Não adianta pegar um projeto depois que já está elaborado. Nesse caso, Inês é morta.

O senhor falou da qualidade do projeto. E quanto à execução? Como impedir os erros grosseiros que vêm ocorrendo em todo o País?
Estamos brigando (Vieira é conselheiro da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural) para que a execução do projeto estrutural seja acompanhada pelo engenheiro projetista. Para que ele não seja responsabilizado depois por erros que não cometeu.

Alguns engenheiros de obras costumam dizer que os projetistas não gostam nem de pisar nos canteiros de obras.
Isso é lenda. O projetista só não gosta de ir ao canteiro se não receber nada por isso. Ele deve ser remunerado, ao menos pelas horas que permaneceu trabalhando no local. Se os projetistas acompanharem o andamento da obra, não haverá mais dúvidas sobre a questão da responsabilidade. Na pior das hipóteses, ele será co-responsável. Nós devemos uma resposta para a sociedade, que está pedindo os culpados pelos últimos incidentes envolvendo a Engenharia. Temos que ser mais transparentes.

O senhor foi um dos poucos representantes do meio técnico que se declarou contra a demolição do edifício Palace II, no Rio de Janeiro. Por quê?
Fui contra a maneira como isso foi decidido. Tudo muito rápido. Pouco mais de um dia após o primeiro desabamento já havia uma empresa de São Paulo fazendo buracos em pilares para colocar dinamite. Além disso, a parte que ficou de pé não deveria estar tão ruim, caso contrário, também teria caído.

Mas e o segundo desmoronamento?
O que caiu foi apenas a caixa-d'água e eu explico o porquê. Após o primeiro desabamento, a caixa-d'água foi esvaziada e a eletricidade desligada. Depois, para que as equipes pudessem trabalhar, a energia foi ligada de novo. Resultado: a caixa-d'água encheu-se e, como já estava avariada devido ao primeiro desmoronamento, desabou, levando junto alguns destroços que estavam pendurados. Não caiu a outra parte do edifício. As fotos dos jornais são claras; havia muita água caindo.

O senhor acredita na hipótese de queima de arquivo?
Não sei. Pode até ser, mas quem sou eu para saber o que está por trás dessa história?

As causas do desabamento nunca serão conhecidas?
Será quase impossível definir com exatidão. Acho curioso aquelas pessoas que aparecem na TV carregando pedaços de destroços e dizendo que o concreto do edifício se esfarela na mão. Aquele punhado de pó pode ser um revestimento esmigalhado, o concreto magro de um contrapiso e até o pedaço de um bloco de vedação.

Nem analisando o edifício Palace I, que é muito parecido com o II?
Não acredito nessa tese. Se o outro prédio fosse tão parecido assim, também teria caído. A questão é a seguinte: eu e várias pessoas que trabalham no ramo há várias décadas já vimos coisas do arco-da-velha. Seguramos coisas que estavam
caindo na nossa cabeça. Além disso, dispomos de diversos tipos de concreto, compósito, de aditivo e um monte de recursos que poderiam nos auxiliar a segurar o edifício. Eu não acredito que uma estrutura que resistiu quase uma semana em pé devesse ser demolida. Demolição em Engenharia é a mesma coisa que eutanásia na Medicina. É a negação da profissão. O engenheiro foi feito para construir, não para demolir.
Projetista aposta na auditoria de estruturas e na especialização dos engenheiros para evitar tragédias como a do edifício Palace II
Eric Cozza

Veja também

Equipe de Obra :: Segurança :: ed 105 - Março de 2017

Certo e errado

Equipe de Obra :: Segurança :: ed 104 - Fevereiro de 2017

Certo e errado

Equipe de Obra :: Segurança :: ed 107 - Maio de 2017

Certo e errado