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Raio X da Alvenaria

1/Setembro/1995
Alvenaria
Desperdício
Materiais
Uma das ações do Programa de Qualidade e Produtividade na Construção Civil do Triân-gulo Mineiro e Alto Paranaíba, este trabalho, desdobrado em duas etapas, buscou co-nhecer o perfil da oferta de unidades de alve-naria em Uberlândia-MG, por tipo, origem, quantidade de fabricantes e revendedores, e volume de vendas mensal - em sua primeira etapa -, além de mensurar e analisar as caracterís-ticas de tijolos maciços e blocos cerâmicos de maior re-pre-sen-tatividade no universo pesquisado, de acordo com as recomendações das normas brasileiras. O estudo tem ainda a in-tenção de subsi-diar o desen-volvimento de ações para a divulgação das normas e de servir à cons-cienti-zação de fabricantes, revendedores, pro-jetis-tas, construtores e consu-midores, com relação à importância da qualida-de dos produtos, em uma segunda etapa.
O projeto desenvolvido no âmbito do Laboratório de Materiais de Cons-trução Civil da UFU, com o apoio do Sinduscon-TAP, representa uma das aç-ões ne-ces-sárias na busca da qua-lida-de nas obras da região para supe-rar o tão decantado quadro de des-per-dí-cio nas cons-truç-ões civis. Para isso, adotou-se como meto-dologia, após a coleta de dados na pri-meira fase, a seleção de ti-jolos e blocos cerâmicos para os estudos da segun-da eta-pa. Nesta, foram rea-lizadas a delimitação dos lotes, a ins-peção geral e a elabo-ração do plano experi-mental, a fim de executar os en-saios em la-borató-rio. Os resultados fo-ram comparados com as es-pe-ci-fi-cações das normas brasilei-ras.
Con-sidera-se, no panorama crítico da construção civil brasileira, que a etapa de execu--ç-ão das al-ve-na-rias assume grande parcela de responsabili-dade devi-do em par-te à fal-ta de pa-dronizaç-ão e de qua-lidade dos tijolos e blocos cerâ-mi-cos. Para aferir esse percentual de responsabilidade, foram rea-lizados traba-lhos da pes-quisa de campo, em março de 1994, em pon-tos de venda e even-tu-al-mente nas pró-prias fábricas desses mate-riais com sede em Uber-lân-dia. A pesquisa foi realizada em seu início nas lo-jas, prin-cipal-men-te para não influenciar os fa-bricantes no pri-meiro momen-to, mos-trando -com isso a real situação da oferta de produtos no merca-do. Tam-bém se procu-rou, as-sim, evi-tar o com-plicador de trabalhar com os fabri-cantes que, em sua maio-ria, estão insta-lados em outras ci-dades da região.
A primeira etapa do estudo teve como objetivos conhecer o perfil da oferta de produtos da cidade por tipo, origem (fabri-cante/proce-dên-cia), a quantidade de fabricantes e revendedoras, o volume de ven-das e a representatividade de cada tipo de produto no total co-mer-cializado.
Após o levantamento dos dados, foram selecionados para estu-do os tipos de produ-tos e sua procedência em função do percentual de ven-da e rela-cionados seis fabricantes de tijolos maciços e 12 de blo-cos cerâmi-cos, que passaram por inspeção geral in lo-co, ins-peção por me-dição e inspe--ç-ão por ensaio, conforme determinam as NBRs 7171/92 e 7170/83.
A segunda etapa teve como metas verificar o nível de infor-mação dos re-vendedo-res sobre os produtos, determinar as suas caracterí-sticas e com-pará-las com as especi-ficações das normas, analisando a aceitaç-ão/-re-jeição na primeira amostragem. Também pretendeu subsidiar o desenvol-vimento de ações para a divulgação das normas e a conscientização de fa-bri-cantes, revende-do-res, projetistas, construtores e consumidores quanto à qualidade dos produtos. Realizou-se, ainda, o ensaio de ab-sorção por dois métodos diferentes (fervu-ra e imersão) para propiciar comparação entre os quatro resulta-dos.

Primeira etapa
Nesta fase, foram identificados 69 fabricantes de tijolos ma-ciços e blo-cos cerâmi-cos de 17 cida-des diferentes e 96 pontos de re-venda de di-versos pontos de Uberlân-dia. Sem contar a venda direta do fabricante, no mês de março de 1993 foram comercia-liza-dos 4,7 milhões de unidades de alve-naria. Desse total, 21,8% eram tijolos maciços, 72,4% blocos cerâmicos (popularmente chamados
de ti-jolão) e somente 5,8% de blocos de concre-to. Entre os fabri-cantes, 33 produzem somente blocos cerâ-mi-cos; dez, blo-cos e tijo-los maciços; e 26 somente tijolos ma-ci-ços.
Quanto ao tipo de produto, foram identificados três tipos de tijolos maciços - de 20 cm, de 25 cm e aparentes - e também três tipos de blo-cos cerâmicos: de 25 cm com oito furos, de 30 cm com oito fu-ros e de 25 cm com seis furos. Dos tijolos maciços, quase a totalidade (-98,8%) era de 20 cm, 0,97% apa-ren-tes e 0,19% de 25 cm. Dos blocos, 84,8% eram do tipo 25 cm com oito furos, 12,8% de 25 cm com seis furos e somente 2,47% de 30 cm com oito fu-ros.

Desconhecimento geral
Na segunda etapa, durante a realização da inspeção geral, al-guns pon-tos de venda ha-viam fechado ou trabalhavam sob encomenda e, assim, fo-ram estudados produtos de cinco fabricantes de tijolos maciços e 11 de blo-cos cerâmi-cos. Durante a inspeção geral in loco, observou-se que, em geral, o revendedor desconhece as características do produto que comer-cializa, tanto com respeito à fabricação como também quanto às nor-mas brasilei-ras. Normalmente, ignora ainda os aspectos de de-limi-tação de lotes unifor-mes. Foram detectados também percentuais muito ele-vados e variados de peças com defeitos visuais (trincas, quebras, su-perfícies irregula-res ou deformações). Esses defeitos atingiam índices entre 10,9% -e 32% para os tijolos e entre 9,8% e 48,1% para os blocos ce-râ-mi-cos. Quanto à apresen-taç-ão da marca do fabricante no produto, ob-ser-vou-se que, da primeira pesquisa de campo até o perío-do da inspeç-ão, so-mente 18,2% dos fabricantes ainda não a haviam adota-do.
Na inspeção por medição, 50% dos blocos não atenderam às especifi-caç-ões da NBR 7171/92 para as dimensões, 100% não atenderam ao desvio com relação ao esquadro, 36,4% não estavam conforme o exigido para a plane-za das faces e todos não atenderam à espessura das paredes externas. Em relação aos tijolos, a totalidade não se enquadrou nas especifi-caç-ões da NBR 7170/-83 para as dimens-ões.
Na inspeção por ensaio, 27,3% dos blocos não atingiram a classe 10 (1 MPa) de resistência à compressão, 9,1% foram classificados como classe 10, 36,4% tiveram indicação de segunda amostragem para confirmação da classe 10, e 27,3% foram classificados como classe 15 (1,5 MPa). Quan-to à absorção, todos atenderam à especificação e, dos tijolos, 60% fo-ram enquadrados na categoria C (4 MPa) de resistência à com-pressão e 40% na categoria B (2,5 MPa).
Comparando os valores de absorção obtidos por fervura (NBR 8947/MB 2132) e por imersão (NBR 12118/MB-3459), foi possível ob-servar que, em 81,8% das amostras ensaia-das, o método da imersão apre-sentou valo-res em mé-dia 21% maiores que os da fervura e em 18,2% das amostras ocor-reu o inverso, com valores 7,5% menores, em média. Os resultados dos blocos cerâmicos por fabricantes e as exigências da NBR 7171/92 são apresen-tados na Tabela 1.

Análise final
A pesquisa constatou significativa quantidade (69) de fabricantes co-mercia-lizando seus pro-dutos em Uberlândia e que praticamente 99% dos tijolos maciços são do tipo 20 cm com oito furos, com a oferta, portan-to, con-cen-trando-se em apenas dois tipos de unidade. Também ficou evi-dente a carência de informações técnicas dos revendedores a respeito dos pro-dutos comer-cializados por eles. Outro defeito preocupante anota-do foi a grande quan-tidade de peças com defei-tos vi-suais, de-mons-tr-an-do a ne-cessida-de de re-visão do pro-cesso produti-vo, do trans-por-te, manu-seio e arma-ze-na-mento dos materiais.
Um aspecto positivo foi observado, porém, com relação à apresentação da marca no bloco, que não era exibida no início do proje-to pela quase totali-dade dos fabricantes. No final do processo, cerca de 73% já ha-viam es-tampado sua marca nas unidades produzidas.

Padronização dimensional
Com relação à padronização dimensional e conside-rando o enquadramento para as três dimensões (largura, com-pri-mento e altura), obs
er-vou-se que ne-nhum produto estava em conformi-dade com as especificaç-ões. Neste
item, foi adotada a determinação pela dimensão média (média arit-mé-tica de 24 peças) para efeito de enquadramento em um determinado tipo di-men-sio-nal. Já para efeito da aceitação/rejeição dentro dos limites fi-xados de +-3 mm, adotou-se a determinação das dimensões de 13 peças (nú-mero de amostras indicado para outras características), complemen-tan-do assim a inspeção, conforme Tabela 1.
Apesar deste quadro geral de falta de padronização dimensional, ao ana-li-sar os resultados de cada amostra de bloco foi possível observar que mui-tos deles apresentavam valores que se distanciavam pouco do va-lor médio daquele fabricante. Isto demostrou ao produtor a possibilidade de ado-tar outra dimensão média, o que poderia ser obtido com a substi-tuição das matrizes por outras com medidas adequadas, acertando assim a largura e altura. O comprimento poderia ser pa-dro-ni-zado mais facilmente por inter-médio do ajuste do corte. No caso dos tijolos, esse problema é típi-co de adequação da matriz.
Ainda na inspeção por medição, verificou-se que nenhum bloco atendeu à espessura mínima das paredes, apesar de alguns deles se en-quadrarem nas exigências de resistência mecânica; no caso da espessura das paredes, também é um problema típico de adequação da ma-triz.
O desvio do esquadro foi outra característica que não atendeu às deter-minaç-ões das normas na totalidade das amostras, devido provavelmente -ao manuseio pós-conformação ou ainda na inadequação na etapa de secagem, indicando a necessidade de um estudo do processo produtivo para a ado---------------ç-ão de medidas que resolvam este importante defeito. Em relação à plane-za das faces, os problemas foram menores: somente uma amostra não aten-deu às especificações.
A aprovação de 100% ocorreu no item absorção e na comparação dos dois métodos de determinação observou-se que parece existir certa re-laç-ão entre eles - na imersão, os resultados revelaram tendên-cia de apresen-tar índices mais elevados. Esta comparação foi feita em virtude da di-ficul-dade para realizar o ensaio da fervura para as 13 pe-ças.

Resultados diferenciados
A análise dos resultados de resistência à compressão permitiu verificar que esta exigência não constitui meta difícil de ser alcança-da, já que os tijolos tiveram aprovação total para a categoria in-terme-diária "B", cuja resistência mínima é de 2,5 MPa. No caso dos blocos, os resultados foram variados, com amostras não atingindo nem sequer a classe 10 (1 MPa), enquanto outras atingiram a classe 15 (1,5 MPa). Os blo-cos que apresentaram seis furos circulares não se enquadraram nas especificaç-ões de norma e os de furos qua-drados tiveram desempenho melhor, talvez em função de apresenta-rem maior área líquida ou maior uniformi-dade e nível de queima.
Apesar de os produtos estudados terem apresentado grandes índices de não-conformidade com as normas brasileiras, as novas ações iniciadas após o término da pesquisa, como a realização de palestras técnicas, por exem-plo, permite certo otimismo quanto à qualidade futura desses materiais, em função do grande interesse demonstrado pelos fabri-cantes nos even-tos.
Novas ações nesse âmbito precisam ser realizadas e os resul-tados devem ser divulgados para incrementar a in-formação e a cons-cien-tização dos seg-mentos envol-vidos, com os conseqüentes reflexos positivos na quali-dade. Espe-ra-se, principalmente, que esses es-forços culmi-nem com a criação de um progra-ma de ava-liação da confor-mi-dade dos pro-dutos, en-volvendo os sindicatos das indús-trias da construç-ão, cerâ-mica e ola-ri-as, univer-si-dades e a ABNT-Asso-ciação Brasi-leira de Normas Técnicas, entre ou-tras, com grandes benefícios para o país.
Neste trabalho, foi de grande valia o apoio da UFU-Uni-versidade Fe-de-ral de Uberlândia, por intermédio da Proepe, e do Sinduscon-TAP-Sindi-cato da Indústria da Cons-trução Civil, com a partici-pação dos engenhei-ros Jo
r-ge M. Guimar-ães e Claúdia C. Souza (Sinduscon-TAP), dos técni-cos Ave-li-no Go-mes e Vander-ley G. Silva (Deeci-UFU) e Ricardo C. Dorne-las, a-lu-no da Engenharia Civil da UFU-Universidade Federal de Uberlândia

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