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Residência Moura

1/Outubro/1997
Casas do Brasil
Moura
Residência
A máxima de que a boa arquitetura depende da comunhão entre arquiteto, cliente e construtor, serve bem para entender esta residência, localizada no Alto de Pinheiros, em São Paulo. O relato dos proprietários é sintomático e demonstra sensibilidade ao destacar os elementos essenciais geradores da estratégia compositiva: pautada na sucessão alternada de vazios, mediante espaços abertos ou de volumes diferenciados.
O enredo desta residência encontra sua trama na progressiva transição entre a rua e os espaços interiores do convívio familiar, voltados para os fundos do lote em declive. Neste percurso vai-se do mais singelo ao mais complexo, dos pés-direitos altos aos baixos, dos espaços abertos aos fechados: entra-se pela garagem, atravessa-se por um pátio (onde se encontra a escada de acesso ao escritório) e entra-se na casa. A partir daí se repete a mesma distribuição espacial (vestíbulo, jantar e estar), agora qualificados pelo vazio central, cuja cobertura curva conforma um átrio que interliga os pavimentos térreo e superior: marcado por um jogo de luzes naturais que se derramam verticalmente pelas paredes laterais, sugerindo introspecção e lirismo. Contrapondo-se a estas, luzes mais diretas, claras e horizontais, representadas pelas janelas voltadas para os fundos e laterais do lote. Em outros termos, opta-se pelo jogo que promove a convivência de luzes que evocam diferentes estados de espírito.
É neste jogo alternado de volumes (e luzes) e suas diferenciadas coberturas que se nota o traço característico de Risi, já evidenciado na residência dos padres claretianos em Batatais e na capela de São Miguel para os beneditinos. Nesta residência, como nas obras citadas, a cobertura é sinal expressivo da composição arquitetônica: sempre oriunda no controle dimensional firmado nos traçados reguladores, responsáveis pela idéia de ordem. No caso em questão, foram adotadas a série de Fibonacci para relações planimétricas e as derivações do quadrado e suas diagonais para as elevações. Nem sempre esta ordem que controla o conjunto das massas, coferindo-lhes relações proporcionais é levada ao rigor . Outros artifícios são trabalhados de forma a enriquecer o processo, sublineando a escrita original. No caso desta residência, as inserções "acidentais" das aberturas insinuam uma desordem aparente, porém submetidas a um controle rítmico que não deixa de evidenciar uma ordenação mais intuitiva, de outra natureza.
Das limitações do lote (e da tradição da casa brasileira) decorreram a sobreposição dos blocos de serviços e dormitórios voltados para um único recuo lateral. O banheiro completo (compartimentado), que atende aos dormitórios dos filhos, retoma uma prática corrente na moderna casa paulistana e, de certa forma, vai ao encontro da tendência contemporânea do binômio banho-dormitório sinal da individualização crescente dos hábitos. Cabe ainda destacar a solução das paredes duplas que conformam um colchão de ar constituído por uma membrana de tijolo à vista e outra revestida, numa das divisas do terreno, que permitem o isolamento com a futura construção vizinha.
Artesanalmente construída, esta casa desenhada por meio de gestos discretos e sutis, sobretudo quando dialoga com a rua, explicita uma ordem que controla os processos compositivos: proporções áureas, volumes e coberturas expressivas, contrapostas ou não, perfuradas ou rasgadas por aberturas que denotam racionalidade e emoção. Noções presentes ao longo da história arquitetônica, que passam por Corbusier e que são retrabalhadas por Risi - a partir de suas ricas experiências e visões acerca da arquitetura religiosa.


Memória
Estrutura: concreto armado
Vedações: alvenaria de tijolos maçicos
Esquadrias: caixilharia de madeira com vidros laminados e venezianas
Cobertura: telhado cerâmico
Escada: concreto
Forros: lajes pré-moldadas revestidas
Pisos: internos, ardósia e madeira; externos, ardósia e granito
Arq. Affonso Risi Jr, Universidade Mackenzie 1972, professor da Universidade Paulista
Equipe técnica:
Projeto arquitetônico: Affonso Risi Jr
Colaboradores: arq. Márcia Arnoni, Celso Sampaio e Sérgio Hespanha
Estrutura: Modus Engenharia - eng. Joevilson dos Santos Araújo
Instalações: Pleno
Luminotécnica: arq. Rosane Haron (Lumini)
Construção: eng. Marco Antonio Oliveira
Mestre de obras: José Augusto Soares Peres
Fotos: Paulo Risi
Ficha técnica:
Local: Alto de Pinheiros, São Paulo, SP
Projeto: 1989/90
Conclusão da obra: 1992
Área do terreno: 458 m2
Área construída: 387 m2