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Templo Obra de fé

13/Setembro/1999
BMV
Obras
Templo
Com treze mil metros quadrados de área construída e capacidade para mais de nove mil pessoas sentadas, o auditório da Estância Árvore da Vida veio à luz a partir de um projeto arquitetônico arrojado. A equipe de sete pessoas liderada pelo arquiteto curitibano Claudionor Beatrici dedicou nove meses ao desenho e detalhamento do templo. Durante esse período, a equipe também atuou na coordenação dos projetos. A Árvore da Vida (site: www.arvoredavida.org.br/eavida/Living.htm) é uma comunidade religiosa, cristã, dona de 24 alqueires na área rural de Sumaré, cidade a 95 quilômetros de São Paulo.
Nessa área, além do auditório, se encontra em construção uma infra-estrutura de pousadas, alojamentos, campings e até residências para uso dos participantes desse grupo ligado ao Living Stream Ministry (site: www.lsm.org), uma comunidade originada por dois chineses, Watchman Nee e Witness Lee, na década de vinte. Nos anos sessenta Witness Lee foi para a Califórnia (costa oeste dos Estados Unidos) onde começou a pregar, o que provocou a construção de milhares de igrejas ao redor do mundo.
Segundo o arquiteto, a principal prerrogativa do projeto foi conciliar os aspectos visuais e acústicos do templo, garantindo a proximidade entre o púlpito e o público com o objetivo de tornar a edificação mais ampla e participativa. "Em nossas conferências, os ouvintes também se manifestam, por isso a circulação entre a platéia e o púlpito precisa ser fácil", explica Luiz Carlos Beatriz, gerenciador de empreendimentos do departamento de obras da Estância Árvore da Vida.
Concepção orgânica - A obra inspirou uma arquitetura de concepção organicista, que se baseia nas formas da natureza. Assim, a estrutura copia o formato de uma concha com vão médio entre apoios de 85 metros. Essa medida proporcionou ao auditório uma distância máxima de quarenta metros entre o púlpito - disposto no vértice do ângulo formado pela concha - e a última fileira, que corresponde à base oposta do triângulo. Contudo, é a cobertura o elemento que mais caracteriza o partido arquitetônico escolhido para a edificação.
Com seis mil metros quadrados de área e altura máxima em relação à platéia de 22 metros, a cobertura foi calculada para a obtenção da melhor propagação do som. O grande desafio foi projetar a estrutura metálica do telhado visto que, em função do formato nada convencional, obrigou ao cálculo de nós e tramos diferentes em todos os pontos. "Há algo de torno de 5,4 mil nós diferentes", conta o arquiteto Claudionor Beatrici. Essa estrutura espacial foi projetada e executada pela Alusud e coube ao engenheiro Francisco Borsoi Salum realizar os cálculos. Ao fim do trabalho, Borsoi havia elaborado mais de duas mil pranchas de projeto executivo. "Foram quase 45 dias para essa estrutura ser calculada no computador", diz Beatrici.
A estrutura cujos tramos têm dois metros e meio de altura é recoberta por duas telhas de aço que formam um colchão de ar de dez centímetros de espessura. Há ainda, entre as telhas, uma camada de cinco centímetros de lã de rocha basáltica para assegurar a proteção térmica e acústica do ambiente.
Fora de padrão - Claudionor Beatrici acrescenta que, sobre as linhas de apoio da estrutura espacial, foram colocadas faixas de policarbonato, dotado de filtro contra radiação solar (os raios ultravioleta nocivos à pele), que conferem luz natural ao interior do auditório. "Dez por cento da área total da cobertura têm iluminação natural, o que dispensa a luz artificial durante o dia", diz Beatrici.
De acordo com o arquiteto Claudionor Beatrici, apesar da complexidade do projeto, a estrutura espacial teve um baixo custo por metro quadrado. A economia foi um dos pontos considerados durante o projeto, pois, afinal, a obra foi realizada com recursos dos próprios participantes da comunidade de fé cristã que utilizará as instalações da Árvore da Vida para conferências e treinamentos.
A construção do auditório coube à construtora BMV, de Sumaré, que, em um estudo de
viabilidade feito em conjunto com o departamento de engenharia da Árvore da Vida, percebeu que a estrutura de concreto moldada in loco seria a solução mais econômica. "Houve dois aspectos", explica o engenheiro Marcio José Vasconcellos, da BMV: "Em primeiro lugar, a obra tem características singulares, fora de padrão, às quais o pré-moldado responderia com dificuldade". "Além disso", completa Luiz Carlos Beatriz, "a execução in loco abre uma violenta frente de trabalho". Beatriz destaca que até os andai-mes foram construídos no canteiro, feitos de madeira, com o único propósito de empregar mais pessoas.
Sistema artesanal - A construção do auditório começou em novembro de 1997. A obra deve estar completa em fevereiro do ano que vem, apesar de haver uma conferência marcada para setembro deste ano. "Estamos trabalhando 24 horas por dia para garantir o funcionamento perfeito das instalações para esse primeiro evento. Depois disso vamos finalizar a obra", diz Vasconcellos. Em média, o canteiro contou com cerca de 75 trabalhadores. Nos últimos seis meses o número de pessoas chegou a dobrar e agora mais oitenta voluntários se dedicam à limpeza da obra.
De acordo com Vasconcellos, o auditório foi implantado em um ponto acidentado do terreno para aproveitar o desnível natural na formação dos níveis da platéia. Assim, o púlpito está instalado na parte mais baixa do terreno e o aclive natural confere inclinações à platéia, corrigidas apenas para estarem adaptadas à circulação de deficientes físicos em cadeiras de rodas. A platéia acomoda 5,5 mil pessoas. Há ainda um segundo pavimento ou balcão, instalado sobre uma laje de concreto armado convencional, capaz de receber mais 3,5 mil pessoas.
Essa obra traz mais uma particularidade na execução das fundações, que foram elaboradas com tubulões a céu aberto com profundidade média de doze metros e diâmetros variando entre 0,70 e 1,20 metro. A diferença é que esses tubulões foram abertos à mão porque, segundo o engenheiro Marcio Vasconcellos, a máquina não teria sensibilidade para perceber o ponto ideal de resistência do solo. "Por ser um solo misto, argiloso e arenoso, é difícil avaliar a resistência e era provável que a máquina ultrapassasse o ponto correto para as fundações", explica Vasconcellos.
Sobre os tubulões foram colocados blocos e vigas de concreto armado. Desses blocos partem os 24 pórticos na forma de arco inclinado com alturas que variam de doze metros e meio, na parte mais alta do terreno, até entre nove e dezesseis metros junto ao púlpito. Os arcos formados pelos pórticos são fechados por lâminas de vidro temperado. Os pórticos cumprem importantes funções no projeto além de servirem de apoio para a estrutura espacial da cobertura.
Pórticos e circulação - Esses elementos regem a circulação externa do auditório ao separarem a área coberta de estacionamento do saguão do auditório, dispostos na parte mais alta do terreno, junto à platéia. No interior de cada um dos pórticos, correm tubulações para captar a água da chuva e conduzi-la às galerias pluviais subterrâneas. Essa tubulação ficará oculta sob um arremate de chapa metálica. Para efeito decorativo, luzes fluorescentes ou neons serão instalados entre o arremate metálico e um acabamento composto de placas de policarbonato.
Atravessando os pórticos, atinge-se o saguão do auditório. A separação entre a platéia e o saguão é feita por sete módulos de apoio, executados em alvenaria. Os módulos concentram as instalações sanitárias - duas masculinas e duas femininas - mais os controles de áudio e vídeo, salas de apoio e informações para os participantes das conferências, além do departamento médico.
Essa modulação se repete sobre a laje do balcão, no segundo pavimento da platéia. Nesse pavimento existem também as galerias técnicas, onde correm todas as instalações hidráulicas e elétricas da edificação. O acesso ao balcão acontece por duas escadarias de concreto que partem do saguão do auditório ou por duas rampas instaladas na
s laterais externas da edificação. Essas rampas são cobertas. Também foram executadas em concreto.
O auditório conta com um subsolo, construído sob o púlpito. Ali foi instalada uma sala de reuniões para duzentas pessoas em formato elíptico, mais uma sala de som para controle exclusivo dessas reuniões, sanitários e sala de preparação destinada a acomodar os palestrantes.
Os acabamentos - O fechamento lateral da edificação apresenta telhas do tipo sanduíche com recheio de poliuretano sustentadas por estrutura metálica espacial, também projetada e executada pela Alusud. Para evitar que as pessoas escalassem a estrutura metálica, paredes de alvenaria foram erguidas até determinada altura. Revestidas de gesso, essas paredes terão função acústica.
O piso de concreto foi executado pela Plano e deve ficar nu sob as poltronas. A equipe da Árvore da Vida está definindo se as áreas de circulação vão receber carpete ou algum outro tipo de revestimento. O púlpito, isso está decidido, será acarpetado.
A área interna do auditório é climatizada. O sistema de ar-condicionado conta com galerias subterrâneas e o ar é insuflado por meio de dutos instalados no piso. Devido à altura da edificação, a potência do ar-condicionado teria de ser muito grande para atingir a platéia caso o ar frio fosse insuflado pelo forro. Há, entretanto, um sistema de exaustão fixo na estrutura espacial da cobertura.
Pela abordagem artesanal, definida em grande parte pela concepção arquitetônica fora de padrão - sem mencionar o aspecto econômico da obra - o projeto do auditório da Estância Árvore da Vida acumulou até agora quinhentas pranchas. É preciso ter fé para tamanha dedicação.
Obra de fé
Construtora BMV executa auditório para quase dez mil pessoas em comunidade religiosa
Ficha técnica - gerenciamento de obra: departamento de engenharia da Estância Árvore da Vida; construção: BMV; projeto arquitetônico: Claudionor Beatrici; topografia: Topoterra; consultores de fundação: JATM, Emepê, Luiz Serafim; fundações: SMR; projeto estrutural: Gerson Barão; projeto de instalações elétricas e hidráulicas: Jaguarê; projeto de tratamento de água e esgoto: Hidrosum; projeto de ar-condicionado: Uniar e Runter; projeto de iluminação: Lumini; projeto de acústica: Peinado-Cardia e De Marco; estrutura metálica: Alusud; concreto: Concretex; aço: Belgo-Mineira e Gerdau; instalações elétricas: Jundiai; instalações hidráulicas: A. Vasconcelos; piso: Plano; som e imagem: Pró In Image; telhas: Intertelhas; cadeiras: Flex Chair; mobiliário: Oficina de Móveis Sumaré; vidros: Design e Só Box; blocos pré-moldados: Tatu
Simone Capozzi