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Engenheiro explica por que alguns estádios da Copa não contam com sistemas de amortecimento

Edificações como a Arena Corinthians e a Arena Fonte Nova não utilizam tecnologias específicas para absorver os movimentos dinâmicos da torcida

Carlos Carvalho, da Infraestrutura Urbana
22/Novembro/2012

Nem todos os estádios que sediarão a Copa de 2014 contam com sistemas de amortecimento para absorver a vibração das arquibancadas. Perigo? Em verdade, nem todos eles precisam do sistema, explica o engenheiro Fernando Rebouças Stucchi, professor titular da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e membro do Comitê Técnico de Pontes e Grandes Estruturas da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece).

Carlos Carvalho
Assim como as Arenas do Corinthians e Fonte Nova, a Nova Arena Palmeiras também não vai utilizar um sistema de amortecimento para as cargas da torcida

Nessa entrevista, o engenheiro explica o porquê de alguns dos novos estádios não terem sido projetados com sistemas de amortecimento, como a Arena Fonte Nova e a Arena Corinthians, por exemplo, e os cuidados para se calcular a frequência de vibração das arquibancadas em projetos com pré-moldados. Confira.

Alguns dos novos estádios que estão sendo construídos no Brasil não têm um sistema específico de amortecimento nas arquibancadas que, segundo os projetistas, teriam suas cargas absorvidas pela própria estrutura de concreto. Como esse tipo de projeto é elaborado para suportar essas cargas em balanço?
Os estádios de futebol contam com cargas dinâmicas horizontais e verticais, em decorrência da movimentação da torcida nas arquibancadas. Estádios "mais antigos", como o Morumbi, por exemplo, foram projetados numa época em que esses estudos dinâmicos não estavam muito avançados, além do fato de as torcidas terem um comportamento diferente do atual. Com o passar dos anos, percebeu-se que esses estádios balançavam demais, tinham muita vibração e uma resposta dinâmica muito ruim. Logo, estádios com essa concepção de projeto mais antiga acabaram exigindo um sistema de amortecimento. O Morumbi, por exemplo, tem vigas em balanço na vertical, que recebem a influência da audiência e do vento e suportam esses movimentos dinâmicos.

Já os estádios mais recentes, como os que estão sendo construídos para a Copa do Mundo, atendem a uma especificação da própria Fifa chamada Green Guide, que exige que sejam atendidas determinadas respostas dinâmicas. Então, agora se tornou necessário a realização de cálculos dinâmicos para atender a esses critérios de desempenho, com frequências próprias muito baixas, especialmente para cargas verticais, mas também para as horizontais.

O que deve ser feito para garantir que essas novas estruturas não precisem de "correção" no futuro?
Os estádios atuais estão todos em pórticos super-rígidos, então a chance de precisar de um sistema de amortecimento no futuro é quase nula. O primeiro estágio é calcular a frequência de vibração - e essa frequência própria, como chamamos, é uma característica da própria estrutura. Para chegar a essa frequência ideal exigida pela Fifa tem de ser usado um carregamento dinâmico que o Green Guide fornece, que simula a torcida pulando de forma orquestrada.

Outra coisa importante são os balanços nas pontas das arquibancadas, que criam uma ligação entre as vibrações verticais e horizontais. Os estádios são, em geral, muito resistentes e rígidos na direção radial, do centro para fora. Mas na direção do comprimento da arquibancada, tangencial, eles, em geral, são mais flexíveis. Por isso, precisam de torres para enrijecer as estruturas na direção tangencial, exatamente para as juntas não ficarem se abrindo e fechando e baterem umas nas outras.

Estruturas metálicas também podem ser calculadas para não demandarem sistema de amortecimento?
Há pouca diferença nos cálculos realizados de estruturas metálicas e de concreto. As estruturas metálicas podem ser mais suscetíveis a problemas de vibração, mas a forma de verificar é a mesma. Então, talvez, seja necessário apenas fazer dessa estrutura metálica um pouco mais rígida do que ela seria se tivesse de suportar apenas cargas estáticas. As estruturas de concreto têm uma vantagem em relação às metálicas porque o amortecimento é maior, existem várias características no concreto que fazem com que a resposta dinâmica em termos de amortecimento seja melhor.

Após a inauguração dos estádios, deve haver algum acompanhamento para testar a reação dessas estruturas às cargas vindas das torcidas?
Devem ser feitos monitoramentos dos jogos, primeiro porque as medidas que estão no Green Guide da Fifa foram feitas na Europa, mas as realidades são diferentes, as torcidas se comportam de formas distintas. Nos estádios em que já medimos as cargas dinâmicas, como o Castelão e o Maracanã, por exemplo, os valores encontrados já foram maiores que dos estádios da Europa. Mas ainda não havia a instalação das cadeiras, que também influenciam nos movimentos dinâmicos. Um estádio sem cadeiras nas arquibancadas (que não é o padrão dos estádios da Copa) tem um aumento na frequência própria, já que a torcida pula com muito mais liberdade. Até por isso, é importante ressaltar que, depois da realização da Copa do Mundo, os estádios não devem retirar suas cadeiras, porque isso pode influenciar sua vibração.

E como esse monitoramento deve ser feito?
Nos testes realizados durante as partidas, deverão ser colocados vários acelerômetros de baixa frequência em vários trechos das arquibancadas para monitorar a frequência durante a partida. Esses aparelhos passam informações para computadores e aí esses resultados poderão ser analisados na prática. O objetivo de se realizar esse monitoramento não é apenas buscar erros a serem corrigidos, mas também melhorar o nível de conhecimento das respostas dinâmicas dos estádios brasileiros, que podem não ser as mesmas dos estádios da Europa. O brasileiro tem um jeito de ser diferente, não é como o dos europeus. Agora, é necessário que sejam criados critérios nossos. Também precisamos conhecer quais serão as respostas dinâmicas desses estádios de acordo com as condições exigidas pela Fifa, que nossos estádios nunca tiveram, já que, antigamente, os estádios tinham uma densidade maior de pessoas e, depois, uma declividade diferente das arquibancadas. Com esses monitoramentos, será possível, inclusive, encontrar as diferenças de frequência entre os nossos próprios estádios.

Marcelo Scandaroli
Estádio do Maracanã terá arquibancadas com estruturas metálicas, que serão conectadas a um contraforte de concreto que deve substituir a utilização de um sistema de amortecedores